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terça-feira, 24 de julho de 2012

O privilégio é todo seu

“Se você participa consciente ou inconscientemente na opressão da sua companheira negra e ela te critica, responder a sua ira com a sua somente servirá para que nossa comunicação se converta em um intercâmbio de hostilidades. Será uma perda de energías, pois não permitiremos aprender umas com as outras, e sim criar uma batalha entre nós para impor nossa verdade”.


- Audre Lorde.


Digo o mesmo para as hetero e poli feministas.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Entrevista com Nawal El Saadawi, parafraseando amiga, quando perguntaram pra ela o que ela achava de mulheres do ocidente fazendo campanha contra mutilação genital feminina.

"- Você tem algum conselho para as mulheres no Ocidente que advogam pelos direitos das mulheres em outros lugares, sem permitir que essa questão dos direitos das mulheres seja instrumentalizada?

- Eu sempre digo que precisamos de solidariedade global e local - o que nós chamamos de "glocal". Mulheres no Ocidente podem nos apoiar por combater seus próprios governos, porque seus governos são aqueles que interferem em nossa vida, por ir e invadir e colonizar outros países. Ninguém pode ajudar ninguém. Ninguém pode nos ajudar no Egito - nós fizemos nossa revolução sozinhos, nós nos libertamos sozinhos. Não acredito em caridade e "ajuda". Acredito em igual troca de ideias, e networking.

- Você alguma vez tem medo quando você condena certas práticas como a MGF (Mutilação Genital Feminina) como "bárbaras", essas condenações seram apropriadas por pessoas com uma agenda anti-árabe?

- Sim, podem usar isso contra nós, para dizer que somos bárbaros e precisamos ser colonizados e civilizados. Mas eles não olham para si mesmos: na Europa e América, as mulheres são circuncizadas mentalmente. As feministas que estão atentas sobre os efeitos do patriarcado compreendem que todas estamos no mesmo barco dos perigos do patriarcado, e que a opressão das mulheres é universal."

quinta-feira, 19 de julho de 2012

“Se você é um homem e você não está pronto para mudar radicalmente, então eu não preciso de você na minha vida mais. Se você é uma mulher, qualquer mulher, então estou pronta para chamar você de minha irmã e ajudá-la e lutar por você.” Molasses

quarta-feira, 18 de julho de 2012

invibilização das lésbicas pelo hedonismo sexual pomo e onde ficam os privilégios no discurso da diversidade do capital?


"O que faz algumas de nós desconfortáveis com mulheres bissexuais? É porque seja porque pensamos que é uma lésbica tendo sexo heterossexual, ou uma garota hetero testando suas fantasias na gente antes de retornar a um homem?
No mundo atual pós-moderno e queer-focado, bissexualidade está sendo promovida igualmente às lésbicas e mulheres heterossexuais como a última moda. Isso foi um resultado das políticas lésbicas, nomeadas feminismo, sendo passadas para trás para tornarem-se em hedonismo sexual, onde a única coisa que importa é o prazer sexual e o desejo.
Similarmente, bissexualidade é vendida para mulheres heterossexuais como tipo de recreação fora de seu 'lar natural' do sexo heterossexual. Isso é visto como 'lesbianismo temporário'.
É mais na moda ter sexo com um homem se você é lésbica que se você é hetero, que apenas estará voltando atrás para o que ela é esperada fazer 'naturalmente'. Lésbicas tendo sexo hetero são vistas como transgressivas, quando de fato elas estão simplesmente revertendo para uma forma tradicional de serem mulheres.Para as mulheres hetero, ter uma namorada do lado é quase como ter a última bolsa de Prada.
Camille Paglia, a mais famosa lésbica anti-lésbica, escreveu sobre como ela louva o pênis e não pode entender aquelas de nós que não o fazem"



Gostoi do que ela escreveu. Eu não sou contra nenhuma mulher salvo que sejam governistas, facistas, oficialistas, reformistas, oportunistas políticas ou algum outro motivo, e nem contra suas escolhas sexuais, mas aqui claro que ela tá falando da comodificação da bissexualidade que existe recentemente e que é muito desrespeituosa na maneira como coloniza e se apropria da identidade e culturas lésbicas muitas vezes, sem cuidado qualquer em como estão nos invisibilizando com isso e quão violento é isso com a gente, num contexto com tantos discursos que já nos invisibilizam e nos colocam como alternativa, como fetiche, como raridade, como experimento, como objetificação (como mulheres e lésbicas), como outridade exótica interessante, como sexuais e sexys, como prog, como transgressivo, emfim todo um lugar de inintelibilidade em que nos recolocam constantemente. E se chamamos elas (essas garotas sem nenhuma acontabilidade com como estão se apropriando do lesbianismo nem de seus próprios privilégios heteros) em sua merda, elas sentem isso como agressão pessoal, e elevam a estatus político na 'política da diversidade' acrítica, como se fosse um ataque a sua decisão sobre corpos ou mesmo identidade política, confundindo tudo pra difundir outra vez a merda da opressão reversa, se vitimizando elas dizendo que agressoras são as lésbicas que não querem ser apagadas outra vez por essas performances ou o que quer que isso seja, mesmo dizendo que nossos sentimentos de ultraje são inválidos. Eu de verdade aceito qualquer mulher que sabe estar em solidariedade com as lésbicas e tem sensibilidade, que solidariza e apoia lesbianismo político, e mesmo que vivam com homens, que emfim não é da minha conta e nem me importa muito, sabem ser cuidadosas e sabem tirar lições das éticas que o lesbianismo pode passar, emfim que não ficam roubando as voz daquelas que VIVEM como uma lésbica, que não têm os benefícios sociais de uma relação com um homem - não sofrer discriminação, não sofrer da lesbofobia itnernalizada da parceria, poder serem assumidas para a família e para a sociedade como companheira, não sofrer as confusões mentais da pessoa e outras que sempre levam anossa marginalização simbólica, emfim várias outras violências que sempre tentam nos tornar invisíveis.

É muito opressivo pra uma lésbica como as mulheres tem arraigada a feminilidade patriarcal e a supremacia masculina, e escolhem homens-em-primeiro, estar na condição de relação alternativa, de experimento poliamoroso, de situação passageira, nunca estar na condição simbólica de EXISTENTE. Essas são coisas reais que garotas com privilégio heterossexuais (independente de como você se auto-defina, porque isso não muda seus privilégios, tampouco acho que política de identidade é auto-atribuída, acho que são sistemas que nos atribuem elas) podiam olhar pra elas mesmas antes de apontar dedo na cara de lésbicas [feministas] e proclamar um feminismo 3o ondístico da diversidade fajuta do capital dizendo que somos nós as que temos 'discurso violento' ou de 'julgar as mulheres', que somos muito 'agressivas' e estridentes por não aceitarmos sua lesbofobia reformada pra cima da gente, inclusive reproduzindo coisas que sequer falamos muitas vezes e distorcendo tudo. De verdade eu não me interesso sobre que escolhas vocês estão fazendo, não é da minha conta e me poupe, principalmente de politizá-la. Não quero saber nem me interessa se você fica com garotas fora da sua relação estável com um homem com aprovação deste, se vocês dois se masturbam depois quando você leva seus relatos das suas 'experiências' com outras mulheres e lésbicas e o quanto sua relação ht é genial, supostamente 'igualitária', fascinante, libertária, quanto ele te 'deixa' várias liberdades e blablabla..., não quero saber tampouco se você tem uma 'amiga lésbica' (assim como os heteros se vangloriam de ter um amigo gay ou os brancos se vangloriam de ter um amigo negro?) que aprova suas atitudes e se anula por você onde você justifica sua merda, não me interessa quanto sua vida sexual está satisfatória na sua maravilhosa 'liberdade' sexual. Já engoli esses discursos toda minha vida. Pra isso ligo a TV.

Eliminar as lésbicas não é só fisicamente, os discursos vigentes também nos eliminam. Nos eliminam da história, da memória. Eliminam a referência a uma sexualidade não fálica. Eliminam com pornografia, sex shop, mercado de dildos e outros sintomáticos da idéia de que a nós nos falta algo, como mulheres que somos que escolhemos mulheres. Existe eliminação simbólica. Você está consciente dela? Provavelmente não, e se faz difícil à você em especial, porque parte do que significa ter privilégio é não experimentar na própria vida essa condição que apenas pode saber escutando de outras, e principalmente não ter que se preocupar em absoluto com isso tudo. (mais fácil depois você dizer que quem tá criando problemas somos nós, as lésbicas facistas que não te satisfaz e não age como você gostaria, sendo a 'amiguinha lésbica' da ht ou bi).


Ao dizer que não me importam suas vidas privadas, claro que não quero com isso dizer que jogo solidariedade e cuidado mútuo no lixo, como feminista, mas digo que não me coloco nunca na posição de decidir por ninguém (alguém já me viu fazendo isso com alguém? não) um autoritarismo e justamente o que nos é roubado pela dominância masculina e nos custa recuperar (decidir sobre nossos corpos e vidas, a despeito da discussão de como as decisões são também construídas e as coerções existentes), mas  sim quero que as pessoas se responsabilizem dos lugares onde estão de modo a não seguirmos sempre estando nós, as lésbicas que vivem como lésbicas e arcam os custos disso e não tem nem como escolher e nem queremos escolher a proteção da heterossexualidade, não seguirmos na condição radical de invisibilidade e irreconhecimento simbólico que nos é atribuído e é parte fundamental da nossa opressão, pra além da rasidade do debate de 'diversidade' e 'discriminação' liberal e reformista. Afinal, a coisa é realmente mais embaixo.

Emfim companheiras, diálogo é possível, embora eu tenha prioridades: mulheres e lésbicas. Se você for sugar minha energia, não tenho vontade de chegar a acordos onde eu tenha que ceder.

Mas se você tá afim de autocriticar-se como todas feministas devemos fazer constantemente, o recado que eu deixo é de que cuidado não é tão difícil assim e que todas podemos. Vamos fazer um esforço?

terça-feira, 17 de julho de 2012

nascer mulher não é privilégio...

É um erro dizer que as feministas que nascem no corpo mulher são cis. Se a definição de cis é 'eu me identifico com meu gênero social ou atribuído ao nascer' (??) isso é totalmente falho se o marco feminista é, 'não se nasce mulher, se torna' ou seja, 'a noção radical de que as mulheres são pessoas', o que feministas não querem e sua luta é por se des-identificar do gênero, ou seja do feminino, do que o heteropatriarcado nos atribuiu e como isso nos construiu. Uma luta de toda vida por descolonizar-nos, de nos fazermos feministas, pessoas, humanas. Eu não me identifico com meu gênero nem nunca me identifiquei, isso me fez feminista, e lutamos por não reproduzí-lo em nossas condutas e nossas práticas, pois estão no marco masculino, já que quem criou o feminino foram os homens. Eu sou mulher como uma categoria social e historicamente oprimida, compartilho essa opressão com outras sujeitas, não significa que essa categoria é indiferenciada nem que a opressão seja exatamente a mesma, mas tem uma mesma origem. Então eu não sou cis nem trans, eu sou feminista, e lesbiana, porque ouso escolher as mulheres assignadas mulheres, coisa que também rompe o marco simbólico atribuído a nosotras.



Ninguém tem direito de dizer que e quem eu sou, só eu mesma e meu coletivo em comum podemos nos auto-definir, se não é essa nossa briga. Nenhum grupo estranho a mim pode reivindicar o poder de me definir. Se o faz isso é o machismo, porque os homens e outros além de nós mesmas sempre nos definiram. É nossa morte simbólica outra vez.


Sobre isso, diz margarita pisano:

"Es muy importante diferenciar claramente lo que significa tener un cuerpo de mujer del ser femenina. El ser femenina es una ambigua y arbitraria construcción simbólica/valórica patriarcal que, obviamente, no hemos construido nosotras. Entonces hablar de lo femenino es hablar de una ajena, una otra construida por un otro, una representadora y no genuina productora de sí misma. La supuesta lealtad de género está conectada a lo femenino, al género, que en sí mismo no tiene la capacidad de la lealtad puesto que está construido en la descalificación de la mujer como ser libre. Justamente por la fragilidad del inicio de reconstruir una simbólica con este cuerpo tan significado por otros es que es importante despejar estas supuestas lealtades. Para la deconstrucción de la feminidad hay que sospechar de todo. Para abrir espacio a un cuerpo con sexo mujer, sujeto pensante, social y político, productor de (una otra) cultura, será necesario, entonces, mujeres que están dispuestas a desprenderse de la feminidad. Algunas mujeres –al descubrir su capacidad de pensar- corren donde los legítimos pensadores, los varones, para que las reconozcan como pensantes, porque como amantes, como madres, no lo necesitan, está reconocido: está en el sentido común que las mujeres somos naturaleza, que nuestra misión del corazón, no de la razón; un corazón que late sin la voluntad de lo humano, excedido, salido del cuerpo, somos la sensibilidad. También está en el sentido común que el varón tiene corazón, pero con cabeza, sentimientos con cabeza; tiene cuerpo y sexualidad con cabeza; aunque a veces para lograr lo que quiere dice que perdió la cabeza. Porque la tiene se la puede sacar, pero un corazón sin cabeza nunca se la puede sacar. La regalona de papá solidariza con las mujeres sólo en tanto las mujeres se mantienen dentro del orden simbólico de la feminidad. Si ella solidariza más allá pierde el reconocimiento de papá. Este es un momento crítico, aquí hay un límite. Es el momento en la traición es posible. A esta situación están expuestas especialmente algunas mujeres que han hecho camino en el feminismo y que, sin embargo, sin la cobertura de las opiniones masculinas temen exponerse. " (em As regalonas del patriarcado)
 


Se alguém além de eu mesma, me identifica, isso é uma violência. A primeira violência que nos é feita é nos identificar como mulheres, ao nascer já furam o lóbulo das nossas orelhas para isso, para nos 'diferenciar' e sofrermos essa socialização escrota. Nossa luta é por identificar a nós mesmas, fora do marco feminilidade, de nos apoderar-nos de auto-definição, re siginificar mulher como coletivo político, eu não me desfaço dessa categoria, mas da feminilidade sim.

Qualquer Poder que queira me identificar é violência e é instrumentalizar-me outra vez para fins alheios a mim e meu coletivo. nascer mulher não é nenhum privilégio, se descobrem e me leem como mulher desde que fazem o ultrassom, já foi receber uma socialização de merda pra que nao desenvolva muitas capacidades humanas que tenho, vão me dar brinquedos específicos e cores e discursos que me colocarão em determinado lugar, que depois haverá muito custo romper. Emfim eu acho que não podemos perder esse marco importante feminista, de que não há privilégio reverso ou em ser mulher... não quero dizer com isso que mulheres não reproduzam merdas, mas não existe privilégio porque coletivamente não há, por gênero. Por classe, cor, mulheres podem ter privilégio, mas por gênero não. Mas posso entender a necessidade de nomear a falta de privilégio de estar na condição travesti. não quero dizendo isso, invisibilizar opressão de ninguém, mas não podem construir neste marco conceitual, porque começa a me soar algo misógino ou mesmo me soa que as mulheres se apagam mesmo ao dizer que seus corpos são privilegiados por serem o que são de nascença. Nesta sociedade não o são. O estuprador sabe identificar-me como portadora de vagina por nascimento.