Alguém poderia pensar que isso teria sido logicamente uma das primeiras questões a serem feitas, e é indubitável a razão pela qual algumas feministas na França (por exemplo, Guillaumin, 1982; Mathieu, 1980; e Wittig, 1992) tivessem se oposto a usar o termo 'gênero'. Elas acreditavam que isso reinforçava a idéia de que 'sexo' em si mesmo é puramente natural. De qualquer modo, não usar o conceito de gênero não significa que alguém assim dirigiria questões à característica natural do sexo. Então economisando no conceito de gênero não parece pra mim a melhor maneira de progredir .
- Christine Delphy, rethinking sex and gender
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segunda-feira, 23 de julho de 2012
sexta-feira, 20 de julho de 2012
"Todas feministas rejeitam a hierarquia sexo/gênero, mas muito poucas estão preparadas para admitir que a consequência lógica desta rejeição é a recusa dos papéis de sexo, e a desaparição do gênero. Feministas parecem querer abolir a hierarquia e até mesmo os papéis sexuais, mas não a diferença em si mesma. Elas querem abolir os conteúdos mas não o container. Elas querem manter alguns elementos do gênero. Algumas querem manter mais, outras menos, mas ao menos elas querem manter a classificação"
- Christine Delphy
quarta-feira, 18 de julho de 2012
invibilização das lésbicas pelo hedonismo sexual pomo e onde ficam os privilégios no discurso da diversidade do capital?
"O que faz algumas de nós desconfortáveis com mulheres bissexuais? É porque seja porque pensamos que é uma lésbica tendo sexo heterossexual, ou uma garota hetero testando suas fantasias na gente antes de retornar a um homem?
No mundo atual pós-moderno e queer-focado, bissexualidade está sendo promovida igualmente às lésbicas e mulheres heterossexuais como a última moda. Isso foi um resultado das políticas lésbicas, nomeadas feminismo, sendo passadas para trás para tornarem-se em hedonismo sexual, onde a única coisa que importa é o prazer sexual e o desejo.
Similarmente, bissexualidade é vendida para mulheres heterossexuais como tipo de recreação fora de seu 'lar natural' do sexo heterossexual. Isso é visto como 'lesbianismo temporário'.
É mais na moda ter sexo com um homem se você é lésbica que se você é hetero, que apenas estará voltando atrás para o que ela é esperada fazer 'naturalmente'. Lésbicas tendo sexo hetero são vistas como transgressivas, quando de fato elas estão simplesmente revertendo para uma forma tradicional de serem mulheres.Para as mulheres hetero, ter uma namorada do lado é quase como ter a última bolsa de Prada.
Camille Paglia, a mais famosa lésbica anti-lésbica, escreveu sobre como ela louva o pênis e não pode entender aquelas de nós que não o fazem"
Gostoi do que ela escreveu. Eu não sou contra nenhuma mulher salvo que sejam governistas, facistas, oficialistas, reformistas, oportunistas políticas ou algum outro motivo, e nem contra suas escolhas sexuais, mas aqui claro que ela tá falando da comodificação da bissexualidade que existe recentemente e que é muito desrespeituosa na maneira como coloniza e se apropria da identidade e culturas lésbicas muitas vezes, sem cuidado qualquer em como estão nos invisibilizando com isso e quão violento é isso com a gente, num contexto com tantos discursos que já nos invisibilizam e nos colocam como alternativa, como fetiche, como raridade, como experimento, como objetificação (como mulheres e lésbicas), como outridade exótica interessante, como sexuais e sexys, como prog, como transgressivo, emfim todo um lugar de inintelibilidade em que nos recolocam constantemente. E se chamamos elas (essas garotas sem nenhuma acontabilidade com como estão se apropriando do lesbianismo nem de seus próprios privilégios heteros) em sua merda, elas sentem isso como agressão pessoal, e elevam a estatus político na 'política da diversidade' acrítica, como se fosse um ataque a sua decisão sobre corpos ou mesmo identidade política, confundindo tudo pra difundir outra vez a merda da opressão reversa, se vitimizando elas dizendo que agressoras são as lésbicas que não querem ser apagadas outra vez por essas performances ou o que quer que isso seja, mesmo dizendo que nossos sentimentos de ultraje são inválidos. Eu de verdade aceito qualquer mulher que sabe estar em solidariedade com as lésbicas e tem sensibilidade, que solidariza e apoia lesbianismo político, e mesmo que vivam com homens, que emfim não é da minha conta e nem me importa muito, sabem ser cuidadosas e sabem tirar lições das éticas que o lesbianismo pode passar, emfim que não ficam roubando as voz daquelas que VIVEM como uma lésbica, que não têm os benefícios sociais de uma relação com um homem - não sofrer discriminação, não sofrer da lesbofobia itnernalizada da parceria, poder serem assumidas para a família e para a sociedade como companheira, não sofrer as confusões mentais da pessoa e outras que sempre levam anossa marginalização simbólica, emfim várias outras violências que sempre tentam nos tornar invisíveis.
É muito opressivo pra uma lésbica como as mulheres tem arraigada a feminilidade patriarcal e a supremacia masculina, e escolhem homens-em-primeiro, estar na condição de relação alternativa, de experimento poliamoroso, de situação passageira, nunca estar na condição simbólica de EXISTENTE. Essas são coisas reais que garotas com privilégio heterossexuais (independente de como você se auto-defina, porque isso não muda seus privilégios, tampouco acho que política de identidade é auto-atribuída, acho que são sistemas que nos atribuem elas) podiam olhar pra elas mesmas antes de apontar dedo na cara de lésbicas [feministas] e proclamar um feminismo 3o ondístico da diversidade fajuta do capital dizendo que somos nós as que temos 'discurso violento' ou de 'julgar as mulheres', que somos muito 'agressivas' e estridentes por não aceitarmos sua lesbofobia reformada pra cima da gente, inclusive reproduzindo coisas que sequer falamos muitas vezes e distorcendo tudo. De verdade eu não me interesso sobre que escolhas vocês estão fazendo, não é da minha conta e me poupe, principalmente de politizá-la. Não quero saber nem me interessa se você fica com garotas fora da sua relação estável com um homem com aprovação deste, se vocês dois se masturbam depois quando você leva seus relatos das suas 'experiências' com outras mulheres e lésbicas e o quanto sua relação ht é genial, supostamente 'igualitária', fascinante, libertária, quanto ele te 'deixa' várias liberdades e blablabla..., não quero saber tampouco se você tem uma 'amiga lésbica' (assim como os heteros se vangloriam de ter um amigo gay ou os brancos se vangloriam de ter um amigo negro?) que aprova suas atitudes e se anula por você onde você justifica sua merda, não me interessa quanto sua vida sexual está satisfatória na sua maravilhosa 'liberdade' sexual. Já engoli esses discursos toda minha vida. Pra isso ligo a TV.
Eliminar as lésbicas não é só fisicamente, os discursos vigentes também nos eliminam. Nos eliminam da história, da memória. Eliminam a referência a uma sexualidade não fálica. Eliminam com pornografia, sex shop, mercado de dildos e outros sintomáticos da idéia de que a nós nos falta algo, como mulheres que somos que escolhemos mulheres. Existe eliminação simbólica. Você está consciente dela? Provavelmente não, e se faz difícil à você em especial, porque parte do que significa ter privilégio é não experimentar na própria vida essa condição que apenas pode saber escutando de outras, e principalmente não ter que se preocupar em absoluto com isso tudo. (mais fácil depois você dizer que quem tá criando problemas somos nós, as lésbicas facistas que não te satisfaz e não age como você gostaria, sendo a 'amiguinha lésbica' da ht ou bi).
Ao dizer que não me importam suas vidas privadas, claro que não quero com isso dizer que jogo solidariedade e cuidado mútuo no lixo, como feminista, mas digo que não me coloco nunca na posição de decidir por ninguém (alguém já me viu fazendo isso com alguém? não) um autoritarismo e justamente o que nos é roubado pela dominância masculina e nos custa recuperar (decidir sobre nossos corpos e vidas, a despeito da discussão de como as decisões são também construídas e as coerções existentes), mas sim quero que as pessoas se responsabilizem dos lugares onde estão de modo a não seguirmos sempre estando nós, as lésbicas que vivem como lésbicas e arcam os custos disso e não tem nem como escolher e nem queremos escolher a proteção da heterossexualidade, não seguirmos na condição radical de invisibilidade e irreconhecimento simbólico que nos é atribuído e é parte fundamental da nossa opressão, pra além da rasidade do debate de 'diversidade' e 'discriminação' liberal e reformista. Afinal, a coisa é realmente mais embaixo.
Emfim companheiras, diálogo é possível, embora eu tenha prioridades: mulheres e lésbicas. Se você for sugar minha energia, não tenho vontade de chegar a acordos onde eu tenha que ceder.
Mas se você tá afim de autocriticar-se como todas feministas devemos fazer constantemente, o recado que eu deixo é de que cuidado não é tão difícil assim e que todas podemos. Vamos fazer um esforço?
Eliminar as lésbicas não é só fisicamente, os discursos vigentes também nos eliminam. Nos eliminam da história, da memória. Eliminam a referência a uma sexualidade não fálica. Eliminam com pornografia, sex shop, mercado de dildos e outros sintomáticos da idéia de que a nós nos falta algo, como mulheres que somos que escolhemos mulheres. Existe eliminação simbólica. Você está consciente dela? Provavelmente não, e se faz difícil à você em especial, porque parte do que significa ter privilégio é não experimentar na própria vida essa condição que apenas pode saber escutando de outras, e principalmente não ter que se preocupar em absoluto com isso tudo. (mais fácil depois você dizer que quem tá criando problemas somos nós, as lésbicas facistas que não te satisfaz e não age como você gostaria, sendo a 'amiguinha lésbica' da ht ou bi).
Ao dizer que não me importam suas vidas privadas, claro que não quero com isso dizer que jogo solidariedade e cuidado mútuo no lixo, como feminista, mas digo que não me coloco nunca na posição de decidir por ninguém (alguém já me viu fazendo isso com alguém? não) um autoritarismo e justamente o que nos é roubado pela dominância masculina e nos custa recuperar (decidir sobre nossos corpos e vidas, a despeito da discussão de como as decisões são também construídas e as coerções existentes), mas sim quero que as pessoas se responsabilizem dos lugares onde estão de modo a não seguirmos sempre estando nós, as lésbicas que vivem como lésbicas e arcam os custos disso e não tem nem como escolher e nem queremos escolher a proteção da heterossexualidade, não seguirmos na condição radical de invisibilidade e irreconhecimento simbólico que nos é atribuído e é parte fundamental da nossa opressão, pra além da rasidade do debate de 'diversidade' e 'discriminação' liberal e reformista. Afinal, a coisa é realmente mais embaixo.
Emfim companheiras, diálogo é possível, embora eu tenha prioridades: mulheres e lésbicas. Se você for sugar minha energia, não tenho vontade de chegar a acordos onde eu tenha que ceder.
Mas se você tá afim de autocriticar-se como todas feministas devemos fazer constantemente, o recado que eu deixo é de que cuidado não é tão difícil assim e que todas podemos. Vamos fazer um esforço?
pornografia não é nenhuma solução para lesbicas
lesbianismo é, por essência e definição, a contra-lógica fálica
Me mandaram isso http://www.cuerposlesbianos.net/ , um site de pós-pornografia lesbiana ou algo assim. E pediram uma opinião.
Então olhei as fotos com cuidado, pensei no lado de quem faz e na proposta transformativa ali presente, as motivações feministas, pró-sexualidade... pensei. E ao final o que penso é mais ou menos assim pra começar:
O que penso da pós-pornografia é que ela distorce as coisas, e que ela é extremamente privilegiada, branca e burguesa, além de 1o mundista. Primero ela faz parecer que o problema das lésbicas é apenas sexual, assim sexual reduzido a prática sexual. E a visibilidade é sexual também com relação a consumo, direito ao consumo de determinas sexualidades, construídas. PArece que oferecem uma imagem de alternativa, de anti-estética, mas a estética ta ali presente. São garotas não magras, algumas tem pelos nas axilas, etc, mas isso nao muda o conteúdo de classe da coisa. A pornorgafia muda a realidade de quais lésbicas? Eu acho que essas são europeias, brancas, e tem grana, acesso a internet... Sabe eu penso, o orgasmo mais intenso ou múltiplo ou diferente ele muda a realidade coeltiva das lésbicas? Nosso problema é sexual? A negação da sexualidade lésbica é destruída e combatida pela pós-pornografia, ou esse mesmo espaço está colonizado pelas tentativas de destruí-la? Que estética prevalesce ali? Eu vejo muitos dildos, acessórios, e o sexo em ambientes públicos e etc, o jogo é uma solução para quem? Que tipo de 'libertação' traz o jogo, as estéticas alt, ou a apropriação da agressão ou a ressignificação do falo, sabe eu acho que essas pessoas pensam que a libertação se dá no nível individual ou das sensações, do sentir-se livre para isso ou aquilo, eu acho que é uma noção de liberdade mercantilizada.
A liberdade de consumir ou fazer ou ser, acessível a tod@s. Tipo os homens como classe tem acesso a corpos de mulheres na pornorgafia e prostituição. Da onde que a solução disso é eu acessar a minha 'também', tipo agora na prateleira do mercado eu sou contemplada, o nicho lésbico. Emfim, eu acho que fato de consumir essas imagens não muda a realidade coletiva de que os homens consomem as imagens pornograficas porque hegemonicamente e institucionalmente, é preciso instaurar determinadas sexualidades, e determinada sexualidade masculina, com fins de dominação... e que também são corporações e redes inteiras que lucram das pessoas prostituídas, do tráfico e etc. Eu não sei se coletivamente a pornografia 'feminista' ou lésbica, liberta, e nem se ajuda a criar um imaginário não falocentrico e não heterossexual para nós. Eu acho que não é possível imaginar enquanto há pornografia, não é possível viver a sexualidade pra fora dos marcos estabelecidos pelo sistema, enquanto há pornografia, não é possível descolonizar-nos enquanto há pornografia.
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macharquistas (ou 'homens radicais')
Pessoas, eu queria entender por que eu me sinto agredida por essa imagem abaixo:
Eu vi isso e automaticamente achei um des respeito e uma coisa machista, mas acho que no contexto que vivo bombardeado pelo feminismo póspósposss minha reação seria tachada de discriminatória. Aí pensei um pouco, eu não sei se é justo traçar um paralelo, mas assim, minha condição de gênero é bastante opressiva. Chega um macho e faz 'performance' se apropriando dos signos opressivos para mim, impostos por uma sociedade machista, e diz que "gênero não existe" (discurso que faz com que eu seja tachada de essencialista se eu digo que eu o vivo na pele, e que faz eles esconderem privilégio e nos calarem dizendo que 'eles não tem gênero'). Sinceramente, eu acharia agressivo e des respeituoso se eu quisesse 'apoiar' pessoas negras e afro-descendentes e pintasse meu rosto de negro, usasse roupas características de sua tradição e identidade, e posasse com um cartaz escrito "Foda-se a raça", mesmo para apropriação de coisas da cultura de povos originários, e outras. Por que a coisa inverteu e quem é intolerante agora é quem acha esse tipo de discurso abaixo opressivo e sem responsabilização real que era o que esperavamos que homens solidários pudessem fazer, reconhecendo seus privilégios?
De repente meu analise está errado com a comparação entre raça e sexo que pode ser oportunista. Mas ainda assim vou manter aí vocês me ajudam qualquer coisa.
Outra é que esse tipo de vestimenta e tal é construida pelo patriarcado, a própria feminilização, não é parte de uma cultura nossa no caso, mas ainda assim muitas mulheres não possuem escolha senão vestir-se assim, nós feministas ainda escolhemos e com alguma dificuldade, não nos depilar e etc, e algumas que mantemos muitas caracteristicas da feminização e recusamos um feminismo misógino que cria uma cobrança de renunciar a socialização pra sermos "mulheres reais" ou "fortes", e ourta também acho agressivo com travestis e transexuais esse tipo de performance de gênero. Nota-se que o sujeito não está em transição nenhuma, deve ser até mesmo ht, e mesmo que seja gay é um homem gay, memso que queira renunciar a masculinidade eu acho um absurdo porque ele ainda retém privilégio de sua masculinidade, sabe depois ele tira essa roupa toda e é "homem", pra ele eh uma escolha e inclusive um privilégio, fica engraçado, ridículo, etc, e heróico fazer isso, e pra gente nao, a gente nao tem como simplesmente tirar uma roupagem e andar na rua sem ser um alvo ou sermos a categoria social 'violável'. Portar um gênero é semelhante a um estigma, eles não vivem essa condição. Ainda é patético, eles podem se apropriar, achei inclusive misógino sei lá, eu sempre acho agressivo quando homens se vestem de mulheres, é geralmente uma arma de humor normativo a coisa de homens se vestirem de mulher, porque é engraçado, coisa que só reafirma os lugares de sexo existentes.
Ser feminina não é uma escolha. As mulheres ht no mercado de trabalho predatório, que tem que esconder sua orientaçao sexo afetiva, sua masculinização, ou serem obrigadas a serem apresentáveis... não há tanta escolha assim. É muito difícil superar essa socialização. a gente se propôe mas é um processo largo desconstruir.
A adoção de queer e de performatividade para distrair da posição de privilégio que ocupam por parte de homens libertários é ainda uma expressão da heterossexualidade masculina, de modo a não perderem seu direito de acesso as mulheres que é a posição básica de privilégio conferida pela masculinidade. Por isso falam que não existe mais gênero. Assim novamente eles podem nos mandar à fogueira por 'excluir' eles... e continuam movendo as garotas umas contra as outras, com o resquício de colonização da feminilidade que resta em todas, que voltam elas em umas polícias do ativismo não divisionista e excludente, do essencialismo feminista.
Pra mim esse ato, vindo de homens que ocupam privilégio, é violação em metáfora e invasão de outro modo, é ainda mesma estética, de apropriação dos corpos de mulheres, e invasão de seus espaços. De minar espaços e encontros onde a existência masculina não seja possível. Também é um modo de apagar as mulheres, de negar lesbianismo tambem e impedir que este apareça para ameaçar eles.
Os homens se sentem mais "livres" se vestindo "de mulher", coisa de quem ocupa posição de privilégio. As pessoas confundem opressão com repressão, e num paradigma liberal tudo vira repressão e agenda de direitos, e até identidades, nao tem mais nada haver com grupos concretamente oprimidos. Parece que agora qualquer coisa pode virar uma identidade ou política de identidade, e reclamar uma agenda de direitos... (até o feminismo totalmente arbitrário de 'cada um com seu feminismo' é um estilo de vida).
O fato da imagem ser "sarcástica" e causar tipo surpresa, tipo como algo anormal, bizarro e até mesmo engraçado ou ridículo, só reforça a construção de que o natural é que ele é homem. Essa imagem nao desconstrói nada. Só reforça privilegio masculino. Heterossexuais sempre fazem festas de trocar roupa, sempre vira uma coisa reaçionária pra quem já foi em uma, inclusive homo e lesofobica, com as garotas hetero fazendo estereotipos grosseiros das mulheres lésbicas e masculinizadas, e os caras que se fazem de gays e depois no outro dia voltarão a ser homem, sabe tudo aquilo é só "zoera", a heterossexualidade está garantida... pra quem é bicha e sapatão isso não é uma comédia, a gente não tem conformidade de gênero já, e isso não é engraçado, pra eles é. Essa é a diferença. Isso é sobre o que privilégio e tê-los é.
Eu vi isso e automaticamente achei um des respeito e uma coisa machista, mas acho que no contexto que vivo bombardeado pelo feminismo póspósposss minha reação seria tachada de discriminatória. Aí pensei um pouco, eu não sei se é justo traçar um paralelo, mas assim, minha condição de gênero é bastante opressiva. Chega um macho e faz 'performance' se apropriando dos signos opressivos para mim, impostos por uma sociedade machista, e diz que "gênero não existe" (discurso que faz com que eu seja tachada de essencialista se eu digo que eu o vivo na pele, e que faz eles esconderem privilégio e nos calarem dizendo que 'eles não tem gênero'). Sinceramente, eu acharia agressivo e des respeituoso se eu quisesse 'apoiar' pessoas negras e afro-descendentes e pintasse meu rosto de negro, usasse roupas características de sua tradição e identidade, e posasse com um cartaz escrito "Foda-se a raça", mesmo para apropriação de coisas da cultura de povos originários, e outras. Por que a coisa inverteu e quem é intolerante agora é quem acha esse tipo de discurso abaixo opressivo e sem responsabilização real que era o que esperavamos que homens solidários pudessem fazer, reconhecendo seus privilégios?
De repente meu analise está errado com a comparação entre raça e sexo que pode ser oportunista. Mas ainda assim vou manter aí vocês me ajudam qualquer coisa.
Outra é que esse tipo de vestimenta e tal é construida pelo patriarcado, a própria feminilização, não é parte de uma cultura nossa no caso, mas ainda assim muitas mulheres não possuem escolha senão vestir-se assim, nós feministas ainda escolhemos e com alguma dificuldade, não nos depilar e etc, e algumas que mantemos muitas caracteristicas da feminização e recusamos um feminismo misógino que cria uma cobrança de renunciar a socialização pra sermos "mulheres reais" ou "fortes", e ourta também acho agressivo com travestis e transexuais esse tipo de performance de gênero. Nota-se que o sujeito não está em transição nenhuma, deve ser até mesmo ht, e mesmo que seja gay é um homem gay, memso que queira renunciar a masculinidade eu acho um absurdo porque ele ainda retém privilégio de sua masculinidade, sabe depois ele tira essa roupa toda e é "homem", pra ele eh uma escolha e inclusive um privilégio, fica engraçado, ridículo, etc, e heróico fazer isso, e pra gente nao, a gente nao tem como simplesmente tirar uma roupagem e andar na rua sem ser um alvo ou sermos a categoria social 'violável'. Portar um gênero é semelhante a um estigma, eles não vivem essa condição. Ainda é patético, eles podem se apropriar, achei inclusive misógino sei lá, eu sempre acho agressivo quando homens se vestem de mulheres, é geralmente uma arma de humor normativo a coisa de homens se vestirem de mulher, porque é engraçado, coisa que só reafirma os lugares de sexo existentes.
Ser feminina não é uma escolha. As mulheres ht no mercado de trabalho predatório, que tem que esconder sua orientaçao sexo afetiva, sua masculinização, ou serem obrigadas a serem apresentáveis... não há tanta escolha assim. É muito difícil superar essa socialização. a gente se propôe mas é um processo largo desconstruir.
A adoção de queer e de performatividade para distrair da posição de privilégio que ocupam por parte de homens libertários é ainda uma expressão da heterossexualidade masculina, de modo a não perderem seu direito de acesso as mulheres que é a posição básica de privilégio conferida pela masculinidade. Por isso falam que não existe mais gênero. Assim novamente eles podem nos mandar à fogueira por 'excluir' eles... e continuam movendo as garotas umas contra as outras, com o resquício de colonização da feminilidade que resta em todas, que voltam elas em umas polícias do ativismo não divisionista e excludente, do essencialismo feminista.
Pra mim esse ato, vindo de homens que ocupam privilégio, é violação em metáfora e invasão de outro modo, é ainda mesma estética, de apropriação dos corpos de mulheres, e invasão de seus espaços. De minar espaços e encontros onde a existência masculina não seja possível. Também é um modo de apagar as mulheres, de negar lesbianismo tambem e impedir que este apareça para ameaçar eles.
Os homens se sentem mais "livres" se vestindo "de mulher", coisa de quem ocupa posição de privilégio. As pessoas confundem opressão com repressão, e num paradigma liberal tudo vira repressão e agenda de direitos, e até identidades, nao tem mais nada haver com grupos concretamente oprimidos. Parece que agora qualquer coisa pode virar uma identidade ou política de identidade, e reclamar uma agenda de direitos... (até o feminismo totalmente arbitrário de 'cada um com seu feminismo' é um estilo de vida).
O fato da imagem ser "sarcástica" e causar tipo surpresa, tipo como algo anormal, bizarro e até mesmo engraçado ou ridículo, só reforça a construção de que o natural é que ele é homem. Essa imagem nao desconstrói nada. Só reforça privilegio masculino. Heterossexuais sempre fazem festas de trocar roupa, sempre vira uma coisa reaçionária pra quem já foi em uma, inclusive homo e lesofobica, com as garotas hetero fazendo estereotipos grosseiros das mulheres lésbicas e masculinizadas, e os caras que se fazem de gays e depois no outro dia voltarão a ser homem, sabe tudo aquilo é só "zoera", a heterossexualidade está garantida... pra quem é bicha e sapatão isso não é uma comédia, a gente não tem conformidade de gênero já, e isso não é engraçado, pra eles é. Essa é a diferença. Isso é sobre o que privilégio e tê-los é.
terça-feira, 17 de julho de 2012
intelecto proibido a oprimida
"Um exemplo deste tipo de revelação/conceptualização ocorreu em uma juntada na qual discutimos as maneiras em que nossos interesses intelectuais haviam sido atacados por nossos iguais, em particular pelos homens Negros. Todas descobrimos que porque eramos “inteligentes” também nos consideravam “feias”, isso é, “inteligente-feia” Ser “inteligente-feia” pôs em evidência que todas havíamos sido obrigadas a desenvolver nossos intelectos ao grande custo das nossas vidas “sociais”. As sanções das comunidades Negras e brancas contra as pensadoras Negras são muito altas em comparação às mulheres brancas, em particular às educadas de classe média e alta." (manifesto rio combahee river)
Os homens sempre são massa quando são intelectuais. A identificação com a intelectualidade é uma linguagem da guerra (vencer, retórica, argumentos, disputa, lógica, razão). garotas burguesas privilegiadas também são maneiras quando são principalmente queer-academicas com vocabulario arrojado falando só o que o sistema quer ouvir. o conhecimento que parte de nossa experiência, vivência e corpo sempre foi desvalorizado. daí partiu a teoria feminista. falam que somos ilegítimas e desqualificadas em nosso 'método'. Que o feminismo antigo é ilógico (segunda onda), essencialista, universalizante, e qualquer outra nota de não ter passado no exame vestibular da pertença ao patriarcado branco neoliberal. ser mulher pensante de verdade é arriscado. Se ainda pensamos o que o sistema quer, nos gratificam. Não ser pertencente à verborragia trendie burguesa pseudo-prog universitariazante significa não ser ouvida e não estar dizendo nada. 'a mulher não existe', afinal.
Os homens sempre são massa quando são intelectuais. A identificação com a intelectualidade é uma linguagem da guerra (vencer, retórica, argumentos, disputa, lógica, razão). garotas burguesas privilegiadas também são maneiras quando são principalmente queer-academicas com vocabulario arrojado falando só o que o sistema quer ouvir. o conhecimento que parte de nossa experiência, vivência e corpo sempre foi desvalorizado. daí partiu a teoria feminista. falam que somos ilegítimas e desqualificadas em nosso 'método'. Que o feminismo antigo é ilógico (segunda onda), essencialista, universalizante, e qualquer outra nota de não ter passado no exame vestibular da pertença ao patriarcado branco neoliberal. ser mulher pensante de verdade é arriscado. Se ainda pensamos o que o sistema quer, nos gratificam. Não ser pertencente à verborragia trendie burguesa pseudo-prog universitariazante significa não ser ouvida e não estar dizendo nada. 'a mulher não existe', afinal.
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nascer mulher não é privilégio...
É um erro dizer que as feministas que nascem no corpo mulher são cis. Se a definição de cis é 'eu me identifico com meu gênero social ou atribuído ao nascer' (??) isso é totalmente falho se o marco feminista é, 'não se nasce mulher, se torna' ou seja, 'a noção radical de que as mulheres são pessoas', o que feministas não querem e sua luta é por se des-identificar do gênero, ou seja do feminino, do que o heteropatriarcado nos atribuiu e como isso nos construiu. Uma luta de toda vida por descolonizar-nos, de nos fazermos feministas, pessoas, humanas. Eu não me identifico com meu gênero nem nunca me identifiquei, isso me fez feminista, e lutamos por não reproduzí-lo em nossas condutas e nossas práticas, pois estão no marco masculino, já que quem criou o feminino foram os homens. Eu sou mulher como uma categoria social e historicamente oprimida, compartilho essa opressão com outras sujeitas, não significa que essa categoria é indiferenciada nem que a opressão seja exatamente a mesma, mas tem uma mesma origem. Então eu não sou cis nem trans, eu sou feminista, e lesbiana, porque ouso escolher as mulheres assignadas mulheres, coisa que também rompe o marco simbólico atribuído a nosotras.
Ninguém tem direito de dizer que e quem eu sou, só eu mesma e meu coletivo em comum podemos nos auto-definir, se não é essa nossa briga. Nenhum grupo estranho a mim pode reivindicar o poder de me definir. Se o faz isso é o machismo, porque os homens e outros além de nós mesmas sempre nos definiram. É nossa morte simbólica outra vez.
Sobre isso, diz margarita pisano:
"Es muy importante diferenciar claramente lo que significa tener un cuerpo de mujer del ser femenina. El ser femenina es una ambigua y arbitraria construcción simbólica/valórica patriarcal que, obviamente, no hemos construido nosotras. Entonces hablar de lo femenino es hablar de una ajena, una otra construida por un otro, una representadora y no genuina productora de sí misma. La supuesta lealtad de género está conectada a lo femenino, al género, que en sí mismo no tiene la capacidad de la lealtad puesto que está construido en la descalificación de la mujer como ser libre. Justamente por la fragilidad del inicio de reconstruir una simbólica con este cuerpo tan significado por otros es que es importante despejar estas supuestas lealtades. Para la deconstrucción de la feminidad hay que sospechar de todo. Para abrir espacio a un cuerpo con sexo mujer, sujeto pensante, social y político, productor de (una otra) cultura, será necesario, entonces, mujeres que están dispuestas a desprenderse de la feminidad. Algunas mujeres –al descubrir su capacidad de pensar- corren donde los legítimos pensadores, los varones, para que las reconozcan como pensantes, porque como amantes, como madres, no lo necesitan, está reconocido: está en el sentido común que las mujeres somos naturaleza, que nuestra misión del corazón, no de la razón; un corazón que late sin la voluntad de lo humano, excedido, salido del cuerpo, somos la sensibilidad. También está en el sentido común que el varón tiene corazón, pero con cabeza, sentimientos con cabeza; tiene cuerpo y sexualidad con cabeza; aunque a veces para lograr lo que quiere dice que perdió la cabeza. Porque la tiene se la puede sacar, pero un corazón sin cabeza nunca se la puede sacar. La regalona de papá solidariza con las mujeres sólo en tanto las mujeres se mantienen dentro del orden simbólico de la feminidad. Si ella solidariza más allá pierde el reconocimiento de papá. Este es un momento crítico, aquí hay un límite. Es el momento en la traición es posible. A esta situación están expuestas especialmente algunas mujeres que han hecho camino en el feminismo y que, sin embargo, sin la cobertura de las opiniones masculinas temen exponerse. " (em As regalonas del patriarcado)
Se alguém além de eu mesma, me identifica, isso é uma violência. A primeira violência que nos é feita é nos identificar como mulheres, ao nascer já furam o lóbulo das nossas orelhas para isso, para nos 'diferenciar' e sofrermos essa socialização escrota. Nossa luta é por identificar a nós mesmas, fora do marco feminilidade, de nos apoderar-nos de auto-definição, re siginificar mulher como coletivo político, eu não me desfaço dessa categoria, mas da feminilidade sim.
Qualquer Poder que queira me identificar é violência e é instrumentalizar-me outra vez para fins alheios a mim e meu coletivo. nascer mulher não é nenhum privilégio, se descobrem e me leem como mulher desde que fazem o ultrassom, já foi receber uma socialização de merda pra que nao desenvolva muitas capacidades humanas que tenho, vão me dar brinquedos específicos e cores e discursos que me colocarão em determinado lugar, que depois haverá muito custo romper. Emfim eu acho que não podemos perder esse marco importante feminista, de que não há privilégio reverso ou em ser mulher... não quero dizer com isso que mulheres não reproduzam merdas, mas não existe privilégio porque coletivamente não há, por gênero. Por classe, cor, mulheres podem ter privilégio, mas por gênero não. Mas posso entender a necessidade de nomear a falta de privilégio de estar na condição travesti. não quero dizendo isso, invisibilizar opressão de ninguém, mas não podem construir neste marco conceitual, porque começa a me soar algo misógino ou mesmo me soa que as mulheres se apagam mesmo ao dizer que seus corpos são privilegiados por serem o que são de nascença. Nesta sociedade não o são. O estuprador sabe identificar-me como portadora de vagina por nascimento.
Ninguém tem direito de dizer que e quem eu sou, só eu mesma e meu coletivo em comum podemos nos auto-definir, se não é essa nossa briga. Nenhum grupo estranho a mim pode reivindicar o poder de me definir. Se o faz isso é o machismo, porque os homens e outros além de nós mesmas sempre nos definiram. É nossa morte simbólica outra vez.
Sobre isso, diz margarita pisano:
"Es muy importante diferenciar claramente lo que significa tener un cuerpo de mujer del ser femenina. El ser femenina es una ambigua y arbitraria construcción simbólica/valórica patriarcal que, obviamente, no hemos construido nosotras. Entonces hablar de lo femenino es hablar de una ajena, una otra construida por un otro, una representadora y no genuina productora de sí misma. La supuesta lealtad de género está conectada a lo femenino, al género, que en sí mismo no tiene la capacidad de la lealtad puesto que está construido en la descalificación de la mujer como ser libre. Justamente por la fragilidad del inicio de reconstruir una simbólica con este cuerpo tan significado por otros es que es importante despejar estas supuestas lealtades. Para la deconstrucción de la feminidad hay que sospechar de todo. Para abrir espacio a un cuerpo con sexo mujer, sujeto pensante, social y político, productor de (una otra) cultura, será necesario, entonces, mujeres que están dispuestas a desprenderse de la feminidad. Algunas mujeres –al descubrir su capacidad de pensar- corren donde los legítimos pensadores, los varones, para que las reconozcan como pensantes, porque como amantes, como madres, no lo necesitan, está reconocido: está en el sentido común que las mujeres somos naturaleza, que nuestra misión del corazón, no de la razón; un corazón que late sin la voluntad de lo humano, excedido, salido del cuerpo, somos la sensibilidad. También está en el sentido común que el varón tiene corazón, pero con cabeza, sentimientos con cabeza; tiene cuerpo y sexualidad con cabeza; aunque a veces para lograr lo que quiere dice que perdió la cabeza. Porque la tiene se la puede sacar, pero un corazón sin cabeza nunca se la puede sacar. La regalona de papá solidariza con las mujeres sólo en tanto las mujeres se mantienen dentro del orden simbólico de la feminidad. Si ella solidariza más allá pierde el reconocimiento de papá. Este es un momento crítico, aquí hay un límite. Es el momento en la traición es posible. A esta situación están expuestas especialmente algunas mujeres que han hecho camino en el feminismo y que, sin embargo, sin la cobertura de las opiniones masculinas temen exponerse. " (em As regalonas del patriarcado)
Se alguém além de eu mesma, me identifica, isso é uma violência. A primeira violência que nos é feita é nos identificar como mulheres, ao nascer já furam o lóbulo das nossas orelhas para isso, para nos 'diferenciar' e sofrermos essa socialização escrota. Nossa luta é por identificar a nós mesmas, fora do marco feminilidade, de nos apoderar-nos de auto-definição, re siginificar mulher como coletivo político, eu não me desfaço dessa categoria, mas da feminilidade sim.
Qualquer Poder que queira me identificar é violência e é instrumentalizar-me outra vez para fins alheios a mim e meu coletivo. nascer mulher não é nenhum privilégio, se descobrem e me leem como mulher desde que fazem o ultrassom, já foi receber uma socialização de merda pra que nao desenvolva muitas capacidades humanas que tenho, vão me dar brinquedos específicos e cores e discursos que me colocarão em determinado lugar, que depois haverá muito custo romper. Emfim eu acho que não podemos perder esse marco importante feminista, de que não há privilégio reverso ou em ser mulher... não quero dizer com isso que mulheres não reproduzam merdas, mas não existe privilégio porque coletivamente não há, por gênero. Por classe, cor, mulheres podem ter privilégio, mas por gênero não. Mas posso entender a necessidade de nomear a falta de privilégio de estar na condição travesti. não quero dizendo isso, invisibilizar opressão de ninguém, mas não podem construir neste marco conceitual, porque começa a me soar algo misógino ou mesmo me soa que as mulheres se apagam mesmo ao dizer que seus corpos são privilegiados por serem o que são de nascença. Nesta sociedade não o são. O estuprador sabe identificar-me como portadora de vagina por nascimento.
judith butler em como as identidades criam 'novos armários'
Vejam o que sai na "Página 12", um jornal 'progressista' argentino bastante lido (semanas atrás saiu uma matéria sobre as 'trabalhadoras sexuais' estarem se levantando em sua autonomia apesar das feministas abolicionistas fecharem os bordéis dos cafetões, pobres coitados né), uma nota chamada "Sair da Onde?" sobre Judith Butler, teoria queer e outras coisas:
"O quê ou quem é isso que está fora, feito visível completamente manifesto quando e se eu revelo a mim mesma como lesbiana? Que é o que se sabe agora? Algo?... Se proclamo que sou lesbiana, saio de um armário somente para criar outro armário novo e diferente" - judith butler
Será que só eu consigo achar que já ouvi isso vindo de heterossexuais e completamente homo e lesbofóbico? As lesbianas vejam só, ao sairem do armário e se assumirem e serem visíveis, criam um novo armário! As políticas de identidade são meras 'caixinhas' e estão 'ultrapassadas', elas são novos armários onde homossexuais, lésbicas e travestis se metem voluntariamente sabe...
Eu já escutei também em algum lado que, principalmente vindo de brancos, o negro ou a negra quando se reivindica negro ou negra é 'racista ao contrário' ou tá reforçando o racismo. Afinal sabe, 'somos todos iguais'... democracia racial... pior tipo de mansplaining que ja vi...
O que penso é que qualquer discurso que aponta a invisibilidade social de grupos é reacionário. Não importa nome bonito que leve (queer) ou seus autores sejam muito eruditos (butler, preciado, aquela das masculinidades lésbicas, mil outros novos que aparecem sempre). Dizer que as identidades são novos armários é um discurso hetero. O racismo também é querer ignorar que há cores. Esses discursos costumam apelar a um 'voluntarismo' dos sujeitos, exemplo 'o próprio negro se discrimina'. Quem não quer reivindicar uma identidade que já tem porque isso é divisionista assumiu um discurso do sistema e precisa superá-lo. Quem não tem consciencia de sua própria identidade está totalmente vulnerável, e quem não precisa ter essas identidades, que são brancos, heteros e homens, não sabe que é estar vulnerável. Fica ainda mais difícil superá-lo se existem novos discursos pra que as pessoas fiquem disfarçando a realidade de sua opressão. Não sei onde que eu vi dizerem que algo muito comum ao oprimido é negar sua própria opressão, e isso é parte da própria opressão que sofre.
Já deu gente. Não vamos adotar porque agora estão embelezadas ou fica lindo, nos sentimos aceitad@s e ainda me protejo da discriminação e exposição da visibilidade nas instituições homo e lesbo fobicas como a Academia e demais.
"O quê ou quem é isso que está fora, feito visível completamente manifesto quando e se eu revelo a mim mesma como lesbiana? Que é o que se sabe agora? Algo?... Se proclamo que sou lesbiana, saio de um armário somente para criar outro armário novo e diferente" - judith butler
Será que só eu consigo achar que já ouvi isso vindo de heterossexuais e completamente homo e lesbofóbico? As lesbianas vejam só, ao sairem do armário e se assumirem e serem visíveis, criam um novo armário! As políticas de identidade são meras 'caixinhas' e estão 'ultrapassadas', elas são novos armários onde homossexuais, lésbicas e travestis se metem voluntariamente sabe...
Eu já escutei também em algum lado que, principalmente vindo de brancos, o negro ou a negra quando se reivindica negro ou negra é 'racista ao contrário' ou tá reforçando o racismo. Afinal sabe, 'somos todos iguais'... democracia racial... pior tipo de mansplaining que ja vi...
O que penso é que qualquer discurso que aponta a invisibilidade social de grupos é reacionário. Não importa nome bonito que leve (queer) ou seus autores sejam muito eruditos (butler, preciado, aquela das masculinidades lésbicas, mil outros novos que aparecem sempre). Dizer que as identidades são novos armários é um discurso hetero. O racismo também é querer ignorar que há cores. Esses discursos costumam apelar a um 'voluntarismo' dos sujeitos, exemplo 'o próprio negro se discrimina'. Quem não quer reivindicar uma identidade que já tem porque isso é divisionista assumiu um discurso do sistema e precisa superá-lo. Quem não tem consciencia de sua própria identidade está totalmente vulnerável, e quem não precisa ter essas identidades, que são brancos, heteros e homens, não sabe que é estar vulnerável. Fica ainda mais difícil superá-lo se existem novos discursos pra que as pessoas fiquem disfarçando a realidade de sua opressão. Não sei onde que eu vi dizerem que algo muito comum ao oprimido é negar sua própria opressão, e isso é parte da própria opressão que sofre.
Já deu gente. Não vamos adotar porque agora estão embelezadas ou fica lindo, nos sentimos aceitad@s e ainda me protejo da discriminação e exposição da visibilidade nas instituições homo e lesbo fobicas como a Academia e demais.
Ao centrar-se na sexualidade, os movimentos gays mistos des-colocam a questão da heterosexualidade ; parte dos movimentos feministas e lésbicos não-mistos colocam o sistema da heterosexualidade obrigatória e da organização da reprodução no coração da opressão das mulheres, e isso é mais ameaçante - Mathieu, 1999
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sábado, 16 de junho de 2012
Impedir consciência de classe/ da opressão (coletiva)/ consciência coletiva/ políticas de identidade é a maneira de impedir que sujeit*s descubram que não possuem liberdade e que precisam traçar uma luta coletiva. Performance, queer, feminismo fun individualista e coisas na perspectiva de transformar qualquer coisa no âmbito privado numa "agenda de direitos" e qualquer prática privada numa "minoria", e inverter grupos com privilégios em oprimidos, na perspectiva da "restrição da liberdade" (não sendo a toa que as primeiras paradas gays dos EUA tinha participação de grupos pedófilos organizados, para quem quiser ler sobre isso busque artigo de Adrienne Rich, Sobre Mentiras, Segredos e Silêncios), com relativismo extremo, são ilusões do exercício democrático oferecidos pelo sistema liberal globalizado que permaneceu como a única alternativa possível de sociedade livre, capitalista, e só grupos com poder de definição da realidade bancado pelo privilégio material de classe e de cor podem usufruir da comodidade "democrática" no sistema capitalista. E o restante, os movimentos populares sociais, os Estados prog coptam... e a burguesia progressista se entretém com marcha das vadias, marcha lgbt, a única beneficiária desse sistema podre, a única responsável de colonizar com suas merdas teóricas.
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quinta-feira, 14 de junho de 2012
escravidão moderna
“Eu libertei uma centena de escravos. Eu poderia ter libertado umas centenas mais se apenas el*s soubessem que eram escravos”. Harriet Tubman. via thefreeslave
(“I freed a thousand slaves. I could have freed a thousand more if only they knew they were slaves.” Harriet Tubman)
(“I freed a thousand slaves. I could have freed a thousand more if only they knew they were slaves.” Harriet Tubman)
quarta-feira, 13 de junho de 2012
Criando e Sustentando Espaços para Bio Lésbicas Butch
por Pippa Fleming
Cada ser humano que chegou a este mundo o fez por meio da vagina de uma mulher. Sem um útero nenhum de nós estariamos aqui. É o útero que nos faz únicas e houve um tempo em que este fato era reverenciado, celebrado e não vilificado. Desde que as guerras contra as antigas tribos de mulheres foi travada há milhares de anos atrás. identidade feminina foi e vem sendo rendida invisível. No núcleo desta invisibilidade estão patriarcado, misoginia, racismo, homofobia, guerra e ódio.
Como uma mulher Afro-Nativa eu carrego o legado da escravidão e genocídio na fibra dos meus ossos e é o chamado da minha vida prestar homenagem para as lutas das minhas ancestrais e nunca esquecer nosso Maafa. É meu dever contar a verdade sobre estupros, envenenamento, emprisionamentos, mortes e abusos de mulheres. A vagina tem sido cobiçada e odiada durante eras .
Desde que a guerra contra as mulheres foi declarada, mulheres tiveram que lutar e sacrificar suas vidas para que outras pudessem; parir suas crianças em casa, andar pelas ruas em paz, ganhar mesmo salário, fazer amor com outra mulher, votar, ter propriedade e não ter que sentar no fundo do ônibus. É único para as mulheres sangrar pelas nossas vaginas e ter o poder de gerar vida se escolhemos. Esse poder divino é a razão pela qual você tem o Facebook como algo trivial ou transformacional.
Então porque quando Eu como uma lesbiana butch negra bio/cis quero criar um espaço separado para celebrar nossa identidade e reconhecer nossa herstória e lutas isso é visto como um ato de exclusão? Por que estou eu novamente sendo dita que mulheres Negras não podem se juntar e que há algo de errado com este desejo e necessidade? É um ato de revolução para lésbicas Negras dizer "nós queremos nosso espaço sem você"... seja lá quem você for. É algo também, e sempre esteve sendo desde que fomos trazidas aqui, ser visto como desacato as mulheres negras se reunirem. Era contra a lei em tempos de escravidão que pessoas Negras estarem sozinhas umas com as outras, a não ser que fosse como massa de manobra. Então isso quer dizer que eu sou uma merda duma escrava outra vez?
Então porque quando Eu como uma lesbiana butch negra bio/cis quero criar um espaço separado para celebrar nossa identidade e reconhecer nossa herstória e lutas isso é visto como um ato de exclusão? Por que estou eu novamente sendo dita que mulheres Negras não podem se juntar e que há algo de errado com este desejo e necessidade? É um ato de revolução para lésbicas Negras dizer "nós queremos nosso espaço sem você"... seja lá quem você for. É algo também, e sempre esteve sendo desde que fomos trazidas aqui, ser visto como desacato as mulheres negras se reunirem. Era contra a lei em tempos de escravidão que pessoas Negras estarem sozinhas umas com as outras, a não ser que fosse como massa de manobra. Então isso quer dizer que eu sou uma merda duma escrava outra vez?
A comunidade LGBTQ é perigosamente culpada de empurrar patriarcado e misoginia goela abaixo das lésbicas mulheres identificadas butch com pouco análise histórico, social e político e é hora de parar com essa merda. Eu nunca entraria num espaço especificamente criado para homens gays Negros e esperar que eles acomodassem minhas questões e demandas que eu fui prestada atenção porque eu sou oprimida. Porque embraçar nossos únicos corpos femininos e identidades causam tanto incêndio na comunidade LGBT e por que criar espaços separados para este discurso significa que estamos tentando minimizar ou diminuir diferentes membros da comunidade de identidade LGBTQ? Nós precisamos criar espaços para solidariedade LGBTQ assim como, espaços para a diferença. Diferenças não deveriam ser a fonte de disputas, mas uma abundância de beleza que celebra a todxs nós.
É hora de parar de mentir para nós mesmas, as crianças não estão bem/certas e há muito diálogo que necessita ocorrer sobre quem somos nós em essa comunidade LGBTQ assim como quais nossas necessidades. É hora de sair dessa cultura de medo que norte-americanos tão profundamente sofrem e por meio da qual funcionam. Um novo dia e tempo está sobre nós todxs e estamos sendo pedidxs para mover-nos e mudar ou sermos deixadxs atrás na areia universal.
É hora de parar de mentir para nós mesmas, as crianças não estão bem/certas e há muito diálogo que necessita ocorrer sobre quem somos nós em essa comunidade LGBTQ assim como quais nossas necessidades. É hora de sair dessa cultura de medo que norte-americanos tão profundamente sofrem e por meio da qual funcionam. Um novo dia e tempo está sobre nós todxs e estamos sendo pedidxs para mover-nos e mudar ou sermos deixadxs atrás na areia universal.
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segunda-feira, 11 de junho de 2012
:
Introdução de Unpacking Queer Politics (Tradução) - Sheila Jeffreys
Introdução
Nos 1990s, um fenômeno conhecido como “packing” se desenvolveu no interior dos setores da comunidade lésbica (Volcano e Halberstam 1999). Isso implicava a utilização de um dildo abaixo da perna da calça para sugerir a existência de um pênis. Essa prática assinalava que, para as lésbicas que a adotavam, a veneração da masculinidade havia triunfado sobre o projeto lésbico-feminista de acabar com a hierarquia de gênero. Ao mesmo tempo, um culto ao transsexualismo se desenvolveu entre grupos similares de lésbicas. Algumas das lésbicas que haviam demonstrado seu comprometimento em alcançar o poder e privilégio masculinos por assumirem uma identidade “butch”, por se engajarem no packing e por manterem competições “drag king” para ver quem poderia mais convincentemente se parecer como um homem, e particularmente um homem gay, moveram-se em direção à cirurgia mutiladora e ao consumo de hormônios que prometiam a “autenticidade” de sua busca (Devor 1999). A mudança do auge do feminismo lésbico o qual compreendíamos, como Adrienne Rich disse, como “O significado de nosso amor por mulheres é o que temos de expandir constantemente” (Rich 1979: 230) a uma situação aonde, em algumas partes influentes e muito publicizadas da comunidade lésbica, masculinidade era o santo graal, não poderia ser mais profunda.
Por que isso aconteceu? Eu devo argumentar aqui que a razão mais significativa foi a influência de uma poderosa cultura gay masculina que, do final dos 1970s em diante, rejeitava o projeto da liberação gay de desmantelar a hierarquia de gênero e escolhia a “masculinidade” como seu objetivo. Através do sadomasoquismo, pornografia gay masculina, práticas sexuais de sexo público e prostituição que celebravam o privilégio masculino, áreas dominantes da cultura gay masculina criaram uma hipermasculinidade e disseram que isso era homossexualidade, e isso era bom. Na última década, vários livros estadunidenses escritos por homens gays lançaram críticas abrangentes da agenda de libertação sexual dos homens gays. Essas críticas são inspiradas primariamente por esssa contínua alta taxa de infecção por HIV nos EUA, mas também por uma percepção de que a cultura do sexo comercial gay empobrecia as vidas e os relacionamentos (Rotello 1997; Signorile 1998a). Alguns teóricos gays empregaram compreensões feministas para lançar violentas críticas no culto gay da masculinidade (Stoltenberg 1991; Levine 1998; Kendall 1997; Jensen 1998). Esse trabalho feito por homens gays é o ponto de partida mais útil pelo qual iniciar em um exame lésbico-feminista da cultura gay e queer atualmente. É o reconhecimento do impacto prejudicial da adoração gay da masculinidade nas vidas de lésbicas que me incita a examinar a cultura e a política gay masculina nesse livro.
Às práticas prejudiciais que se desenvolveram nesse período foram dadas todas justificativas teóricas no interior da política e teoria queer. Argumento que quando a política queer nos 1990s atacou os princípios da liberação gay e do feminismo lésbico, que requeriu a transformação da vida pessoal, houve um backlash contra a possibilidade da mudança social radical. A nova política era baseada, muito explicitamente, em um repúdio das ideias lésbicas feministas. A política queer consagrou um culto da masculinidade. Argumento aqui que a agenda política da política queer está danificando os interesses de lésbicas, mulheres no geral, e círculos marginalizados e vulneráveis de homens gays. A noção de que a política queer pode representar os interesses das lésbicas assim como dos homens gays emerge da ideia errônea de que lésbicas e homens gays podem formar um círculo unificado com interesses comuns. O feminismo lésbico foi criado da compreensão feminista de que lésbicas são mulheres, e que os interesses das mulheres em organizações políticas mistas são regularmente excluídos ou inclusive diretamente contrariados. Essa compreensão foi sendo perdida na política queer, e esse livro é escrito para trazer os interesses das mulheres e lésbicas mais uma vez para o primeiro plano da discussão política lésbica e gay.
A acolhida efusão de livros sobre teoria política e legal lésbica e gay dos 1990s parece iniciar da premissa de que lésbicas e homens gays formam uma categoria social unificada que possui uma agenda homogênea para servir interesses unificados (Evans 1993; Wilson 1995; Vaid 1995; Stychin 1995; Bell e Binnie 2000). Muito dessa nova escrita busca integrar lésbicas e gays na teorização da cidadania com a criação de novas categorias de cidadania sexual ou queer. Diane Richardson é uma das poucas vozes pontuando que lésbicas não podem ser simplesmente subordinadas no interior de tal categoria (Richardson 2000a, b). A ausência geral de tal ponto de vista feminista com relação à “cidadania sexual” é um enigma. Livros por teóricas feministas sobre a cidadania das mulheres analisam os interesses contraditórios de mulheres e homens. Elas pontuam que a ideias e a prática da cidadania dos homens foi criada precisamente da subordinação das mulheres (Pateman 1988; Vogel 1994). Mas essa compreensão feminista parece desaparecer na teorização da cidadania “sexual”. De fato, lésbicas e homens gays estão longe de uma categoria unificada com interesses unificados. Lésbicas são mulheres, e teorias lésbicas da cidadania devem continuar a examinar as contradições entre os interesses de mulheres e homens, particularmente com relação às contradições entre os interesses de homens gays e toda a comunidade de mulheres.
Sem Necessária Comunidade de Interesse
Lésbicas feministas, que optaram por se organizarem e viverem suas vidas separadamente dos homens gays, estiveram durante muito tempo sutilmente cientes de que não havia necessária comunidade de interesse entre lésbicas e homens gays. A poeta e escritora Adrienne Rich escreveu no final dos 1970s, quando o feminismo lésbico estava em seu pico, que os interesses de lésbicas eram ameaçados por ambas as culturas heterossexual e de homens gays.
Lésbicas foram forçadas a viverem entre as duas culturas, ambas dominadas pelo masculino, cada uma da qual negou e pôs em perigo nossa existência. Por um lado, existe a cultura patriarcal, heterossexista... Por outro lado, existe a cultura patriarcal homossexual, a cultura criada por homens homossexuais, refletindo tais estereótipos masculinos como dominância e submissão como modelos de relacionamento, e a separação do sexo do envolvimento emocional – uma cultura marcada pelo profundo ódio às mulheres. A cultura masculina “gay” ofereceu às lésbicas a imitação de estereótipos de papel de “butch” e “femme”, “ativa” e “passiva”, cruising e sadomasoquismo, e o violento, auto-destrutivo mundo dos bares “gays”. Nem a cultura heterossexual nem a cultura “gay” ofereceu às lésbicas um espaço no qual descobrir o que significava ser auto-definida, auto-afetuosa, identificada-mulher, nem uma imitação dos homens nem seu oposto objetificado. (Rich 1979: 225)
O feminismo lésbico ofereceu às lésbicas o espaço necessário no qual criar valores feministas lésbicos e expressar seu amor por mulheres. A filósofa lésbica-feminista Marilyn Frye escreveu incisivamente sobre os valores compartilhados que existem entre homens gays e heterossexuais e a necessidade de lésbicas em se separar para criar suas próprias comunidades e política (Frye 1983). A crise da AIDS e o nascimento da política queer levaram muitas lésbicas a se voltarem ao trabalho com homens gays enquanto sepultavam suas aflições sobre os valores da cultura gay masculina dominante. Isso é, apesar do fato de que alguns influentes escritores e ativistas gays não foram tímidos sobre expandir seus hostis sentimentos sobre mulheres e lésbicas. Um bom exemplo disso é a alegria com que alguns homens gays estiveram preparados para falar sobre o “fator eca”.
A existência do que tem sido chamado de “efeito eca” pode muito bem ser considerado a ficar no caminho de qualquer fácil suposição de existir uma categoria lésbica ou gay unificada no interior de uma cidadania pluralista. Esse termo é empregado em escritos gays masculinos para descrever a extrema repulsa experienciada por alguns homens gays no pensar ou ver corpos nus de mulheres. Ele tem sido bastante conhecido uma vez que workshops sobre o tópico têm sido realizados anualmente nas conferências da US National Lesbian and Gay Task Force. Eric Rofes, um membro de liderança doSex Panic, tem se envolvido em organizar os workshops nos quais lésbicas e homens gays são admitidos a assistir para ouvir o que um acha do outro. Ele explica que é muito identificado com o lésbico – e o feminista –, e que é muito transtornado pelo “efeito eca” que ele experiencia. Ele escreve sobre passar por lésbicas tomando sol numa praia gay que estavam fazendo topless. Ele experimentou grande desconforto: “Quando finalmente atravessamos a seção de mulheres e os torsos de homens apareceram, minha respiração se acalma, minha pele para de suar, e meu coração para de acelerar” (Rofes 1998b: 45). Ele explica sua reação assim:
Eu sou um homem gay com amizades de longo prazo com lésbicas e um forte comprometimento em apoiar a cultura lésbica. Porém, eu sou um dos muitos gays que compartilham o que eu chamo de “o efeito eca” – uma resposta visceral variando da aversão à repugnância quando confrontado com sexo e corpos lésbicos. Ao longo de quase 25 anos de envolvimento nas culturas gays masculinas, eu testemunhei vários homens expressando sua repulsa ao sexo lésbico e aos corpos de mulheres. Eu ouvi inúmeras piadas “de atum”, vi rostos de homens azedarem quando sexo lésbico aparece em filmes, e assiti homens gays amontoados em pequenos grupos expressando desgosto sobre mulheres fazendo topless em manifestações políticas. (p. 46)
Piadas “de atum” surgem do hábito entre homens gays de chamarem mulheres de “peixe” após o que eles consideram ser o cheiro repulsivo de seus genitais. Alguns homens gays não suportam estar perto de lésbicas por causa da maneira como cheiram. Rofes cita um homem dizendo que ele não podia se tornar fisicamente próximo de lésbicas “por causa de seus odores que ele acreditava seus corpos emitiam” (p. 47).
Embora ele não tenha evidência da qual calcular isso, Rofes considera que um terço dos homens gays são assim repelidos. Por um tempo pelo menos, o termo “fator eca” era corrente. Por exemplo, um artigo por um escritor gay estadunidense publicado na revista gay masculina australiana Outrage em 1997 chamado “Entendendo como lidar com o fator eca” descreve homens gays indo para uma festa mista de forma a tentarem superar o se sentir “enojado” sobre genitais femininos. O autor comenta que “o fator eca na cultura gay masculina” “não é incomum entre homens gays” (Strubbe 1997: 44).
O racismo no Reino Unido nos 1960s foi frequentemente focado no suposto cheiro diferente de cidadãos asiático-britânicos. Os sentimentos desses homens gays que acham os corpos de mulheres tão difíceis de lidar lembra-me daquele tipo visceral de racismo. Homens e mulheres, qualquer que seja sua orientação sexual, são criados numa sociedade supremacista masculina que ensina que os corpos de mulheres são nojentos, ao passo que pênis conferem honra e orgulho. A saúde mental de lésbicas que estão procurando se recuperar desse ódio por mulheres de modo que assim possam amar e respeitar os corpos de mulheres pode não ser bem fornecido por qualquer nível de comunidade com homens que nutrem tal profunda misoginia. Rofes se sente culpado, e deseja superar seus sentimentos extraordinariamente negativos sobre mulheres, mas o que é surpreendente é que ele se sente capaz de falar sobre elas tão prontamente, enquanto que sentimentos similares com base em raça provavelmente não seriam considerados tão aceitáveis em relacionar. Em face de tais sentimentos, parece ser despropositado esperar qualquer comunidade direta de interesses entre lésbicas e homens gays.
A fim de que essa imagem da misoginia de homens gays não pareça tão desoladora, é importante pontuar que houve um homem gay na mesma antologia, Opposite Sex, que conteu o artigo sobre o fator “eca” no qual utilizou uma perspectiva lésbico-feminista e mostrou simpatia genuína pela experiência de mulheres. Robert Jensen explica quão solitário é tomar tal posição numa cultura gay sexual-libertária na qual o questionamento político da prática sexual é simplesmente barrado de todos os lados: “Para mim, ser gay significa não só reconhecer o desejo sexual por homens mas também resistir às normas e práticas do patriarcado... Tal comprometimento é difícil de fazer valer num mundo de privilégio masculino, e eu encontrei poucos modelos de como viver eticamente como um homem – hetero ou gay – em um patriarcado” (Jensen 1998: 152).
Jensen utiliza o trabalho de teóricas lésbicas feministas radicais tais como Marilyn Frye para apoiar sua recusa a fazer uma divisão público/privado. Ele não permite uma imunidade para a prática sexual gay masculina da crítica política: “são essas mesmas práticas que mimetizam a heterossexualidade em sua aceitação dos valores sexuais patriarcais: a desconexão do sexo do afeto e interação emocional com um outro, a equação heterossexual do sexo com penetração e dominação e submissão, e a mercantilização do sexo na pornografia” (Jensen 1998: 156). Em oposição direta ao liberalismo da política gay pública, ele considera que “Existem implicações políticas e éticas em todos os aspectos da vida cotidiana... Não existe escapatória do julgamento, nem devemos buscar tal escapatória” (p. 154).
Masculinidade Gay
Uma vez que sugiro neste livro que é a promoção e a celebração da masculinidade gay que cria a diferença de interesse mais fundamental entre a corrente masculina de agenda gay e os interesses de lésbicas e outras mulheres, é importante explicar o que quero dizer por masculinidade. Minha compreensão da masculinidade é que se refere ao comportamento que é construído pela dominação masculina e serve para mantê-la. A masculinidade não é só aquilo que pertence aos homens, uma vez que os homens podem ser vistos, e considerar a si mesmos, como sendo insuficientemente masculinos. Na verdade, isso é precisamente o que os homens gays antes dos 1970s frequentemente se consideravam, e eram considerados por outros. A masculinidade não é, então, um fato biológico, algo relacionado com hormônios específicos ou genes. O comportamento masculino ou a aparência ou os artefatos e o design significam a “masculinidade” como uma categoria política e não biológica. Nessa compreensão, a masculinidade não pode existir sem seu suposto oposto, a feminilidade, que diz respeito à subordinação feminina. Nem a masculinidade nem a feminilidade fazem sentido ou podem existir sem os outros como um ponto de referência (Connell 1995).
Embora escritores sobre a masculinidade como Robert Connell tendam, atualmente, a usar o termo “masculinidade” com um “s” – ou seja, masculinidades -, eu intencionalmente assim não o faço. Eu reconheço que a forma tomada pelo comportamento masculino dominante, a masculinidade, pode variar consideravelmente, e é influenciado pela classe, raça e muitos outros fatores. O uso do plural, no entanto, sugere que nem todas as variedades da masculinidade são problemáticas, e que algumas podem ser salvas. Vez que defino a masculinidade como o comportamento da dominação masculina, estou interessada em eliminá-la ao invés de salvar qualquer de sua variedade e, portanto, não usar o termo “masculinidades”. À medida que os homens gays como grupo buscam proteger politicamente sua prática da masculinidade, eles podem ser vistos como agindo da direção contrária aos interesses de mulheres, e de lésbicas como uma categoria de mulheres. Eles não podem, afinal de contas, ter sua masculinidade (em qualquer forma) para fazer com que se sintam melhores, sem a existência de uma classe substancial de pessoas subordinadas representando a feminilidade, e essa é atualmente mulher.
Os escritos críticos de Martin Levine sobre a masculinidade gay foram publicados postumamente por seu editor literário, Michal Kimmel (Levine 1998). Eles fornecem uma profunda análise do problema. Ele explica que, em uma liberação pós-gay, homens gays apropriaram a masculinidade como uma compensação pelos estereótipos femininos que foram forçados neles em períodos anteriores.
Eu argumento que homens gays ordenaram a sexualidade hipermasculina como uma forma de desafiar sua estigmatização como homens que falharam, como “maricas”, e que muitas das instituições que se desenvolveram no mundo gay masculino dos 1970s e início dos 1980s apoiavam e atendiam a esse código sexual hipermasculino – desde as lojas de roupa e butiques sexuais, a bares, balneários e ginásticas onipresentes. (Levine 1998: 5)
Uma masculinidade exagerada se tornou o estilo dominante na cultura gay e, como Levine pontua, através da influência de designers gays e da discoteca gay, ajudaram a criar a moda para tal masculinidade exagerada na cultura heterossexual fashion também. Em Unpacking Queer Politics, analisarei as práticas da masculinidade que moldam as áreas da cultura sexual gay masculina e a agenda política queer uma vez que se relaciona com a prática sexual. Vou olhar para o efeito que possui sobre lésbicas, homens gays em uma cultura gay mista que celebra e erotiza a masculinidade como o bem mais elevado.
Examinarei as demandas políticas de alguns ativistas gays, em grupos como Outrage no Reino Unido e Sex Panic nos EUA, para libertação sexual nas áreas de sexo público, pornografia e sadomasoquismo, e argumentar que eles são baseados em uma agenda tradicionalmente patriarcal. Tais ativistas tendem a dizer que são desafiadores na distinção público/privado na qual a atividade sexual é usualmente confinada à espera privada. No entanto, as campanhas para ampliar o sexo “privado” no domínio público são baseadas na noção de que sexo deve continuar a ser reconhecido como “privado” – ou seja, protegido da crítica política e digno de respeito como um exercício da liberdade individual mesmo se executado em um parque público. A agenda lésbico-feminista é similar à manifestação de mulheres em desafiarem a distinção público/privado na qual compreensões comuns da política são baseadas. Lésbicas feministas querem uma democracia política dentro e fora de casa, sem distinção que proteja uma escravidão privada de exploração sexual e violação.
O projeto lésbico-feminista em criar a igualdade no mundo privado do sexo e relacionamentos, baseado na compreensão de que o pessoal é político, pode ser a base de criar um mundo público que é saudável para mulheres viverem. Lésbicas feministas que vivem agora de acordo com esses princípios, aquelas que são ridicularizadas na mídia e em fóruns queer como politicamente corretas, fascistas “sexo-fóbicas”, devem talvez ser entendidas como a vanguarda da mudança social radical.
um pouco sobre lesbianismo político e não somente sexual
Lesbianismo é... acima de tudo a prática de solidariedade fundamental entre mulheres. Toda nossa vida emocional é investida nas mulheres, para mulheres, com mulheres; nós não damos qualquer benefício para o opressor... Todas mulheres devem se tornar lésbicas, isso é, ganhar solidariedade, resistir, e não colaborar. Enquanto o lesbianismo for considerado um tipo diferente de sexualidade, enquanto "desejo" for pensado como vindo de um impulso desconhecido, a idéia de lesbianismo como escolha política será visto como inaceitável (Monique, 1980)
retirado de "The Social Construction of Lesbianism", Celia Kitzinger. 1987.
retirado de "The Social Construction of Lesbianism", Celia Kitzinger. 1987.
domingo, 10 de junho de 2012
Por que me nomeio lésbica por Cheryl Clarke
"Eu me nomeio 'lésbica' porque essa cultura oprime, silencia e destrói as lésbicas, mesmo as lésbicas que não chamam a elas mesmas como 'lésbicas'. Eu nomeio a mim mesma 'lésbica' porque eu quero ser visível para outras lésbicas negras. Eu nomeio a mim mesma 'lésbica' porque eu não quero subscrever-me à heterosexualidade predatória/ institucionalizada. Eu me nomeio lésbica porque eu quero estar com mulheres (e elas todas não têm que chamarem-se a si mesmas 'lésbicas'). Eu me nomeio 'lésbica' porque é parte da minha visão. Eu nomeio a mim mesma lésbica porque ser mulher-identificada foi o que veio me mantendo sã. Eu chamo a mim mesma 'Negra', também, porque Negra é a minha perspectiva, minha Estética, minhas políticas, minha visão, minha sanidade" -
- Cheryl Clarke, em "Novas Notas em Lesbianismo".
- Cheryl Clarke, em "Novas Notas em Lesbianismo".
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