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sexta-feira, 20 de julho de 2012


"Todas feministas rejeitam a hierarquia sexo/gênero, mas muito poucas estão preparadas para admitir que a consequência lógica desta rejeição é a recusa dos papéis de sexo, e a desaparição do gênero. Feministas parecem querer abolir a hierarquia e até mesmo os papéis sexuais, mas não a diferença em si mesma. Elas querem abolir os conteúdos mas não o container. Elas querem manter alguns elementos do gênero. Algumas querem manter mais, outras menos, mas ao menos elas querem manter a classificação"


- Christine Delphy

terça-feira, 17 de julho de 2012

intelecto proibido a oprimida

"Um exemplo deste tipo de revelação/conceptualização ocorreu em uma juntada na qual discutimos as maneiras em que nossos interesses intelectuais haviam sido atacados por nossos iguais, em particular pelos homens Negros. Todas descobrimos que porque eramos “inteligentes” também nos consideravam “feias”, isso é, “inteligente-feia” Ser “inteligente-feia” pôs em evidência que todas havíamos sido obrigadas a desenvolver nossos intelectos ao grande custo das nossas vidas “sociais”. As sanções das comunidades Negras e brancas contra as pensadoras Negras são muito altas em comparação às mulheres brancas, em particular às educadas de classe média e alta." (manifesto rio combahee river)



Os homens sempre são massa quando são intelectuais. A identificação com a intelectualidade é uma linguagem da guerra (vencer, retórica, argumentos, disputa, lógica, razão). garotas burguesas privilegiadas também são maneiras quando são principalmente queer-academicas com vocabulario arrojado falando só o que o sistema quer ouvir. o conhecimento que parte de nossa experiência, vivência e corpo sempre foi desvalorizado. daí partiu a teoria feminista. falam que somos ilegítimas e desqualificadas em nosso 'método'. Que o feminismo antigo é ilógico (segunda onda), essencialista, universalizante, e qualquer outra nota de não ter passado no exame vestibular da pertença ao patriarcado branco neoliberal. ser mulher pensante de verdade é arriscado. Se ainda pensamos o que o sistema quer, nos gratificam. Não ser pertencente à verborragia trendie burguesa pseudo-prog universitariazante significa não ser ouvida e não estar dizendo nada. 'a mulher não existe', afinal.

por que anarquismo adotou queer

pergunta da minha amiga: "por que os anarquistas adotaram o queer?", e "mas o anarquismo critica as modas, por que?". Bom eu acho que somos capazes de responder essa questão. Que vocês acham?

minha tese é de que as esquerdas, assim como os estados, as instituições, e todo mais que seja dominado por homens, valem-se do conceito de gênero e do inclusivismo acrítico queer já que, emfim são dominados por homens. Também não é mais preciso brigar pelos próprios espaços, ficarmos feias e mau com ninguém. depois eu acho que o anarquismo virou uma moda e foi comercializado também e foi apropriado pelo mercado, então as duas coisas andam juntas.

(emfim parágrafo anterior pode ser extendido e elaborado na reflexão)

O que queria mesmo entender é como desde as experiências mais clássicas do anarcofeminismo, abolicionistas, seja emma goldmann a mujeres libres, os 'anarkxpomo' foram virar legalistas da prostituição e adotar a história de 'trabalhadoras sexuais'. Pra mim isso também tem haver com dominancia masculina anarquista e o heterocentrismo das anarkafeministas (mesmo as bissexuais e 'lésbicas' que talvez não cheguem a identificar-se assim). Não entendo porque as companheiras jogam fora sua história na real, se a história de mulheres anarquistas, libertárias e revolucionárias está marcada pelo separatismo e pela autonomia em relação aos homens, e na abolição da prostituição. Emfim vamos resgatar nossas herstórias...

judith butler em como as identidades criam 'novos armários'

Vejam o que sai na "Página 12", um jornal 'progressista' argentino bastante lido (semanas atrás saiu uma matéria sobre as 'trabalhadoras sexuais' estarem se levantando em sua autonomia apesar das feministas abolicionistas fecharem os bordéis dos cafetões, pobres coitados né), uma nota chamada "Sair da Onde?" sobre Judith Butler, teoria queer e outras coisas:

"O quê ou quem é isso que está fora, feito visível completamente manifesto quando e se eu revelo a mim mesma como lesbiana? Que é o que se sabe agora? Algo?... Se proclamo que sou lesbiana, saio de um armário somente para criar outro armário novo e diferente" - judith butler


Será que só eu consigo achar que já ouvi isso vindo de heterossexuais e completamente homo e lesbofóbico? As lesbianas vejam só, ao sairem do armário e se assumirem e serem visíveis, criam um novo armário! As políticas de identidade são meras 'caixinhas' e estão 'ultrapassadas', elas são novos armários onde homossexuais, lésbicas e  travestis se metem voluntariamente sabe...


Eu já escutei também em algum lado que, principalmente vindo de brancos, o negro ou a negra quando se reivindica negro ou negra é 'racista ao contrário' ou tá reforçando o racismo. Afinal sabe, 'somos todos iguais'... democracia racial... pior tipo de mansplaining que ja vi...


O que penso é que qualquer discurso que aponta a invisibilidade social de grupos é reacionário. Não importa nome bonito que leve (queer) ou seus autores sejam muito eruditos (butler, preciado, aquela das masculinidades lésbicas, mil outros novos que aparecem sempre). Dizer que as identidades são novos armários é um discurso hetero. O racismo também é querer ignorar que há cores. Esses discursos costumam apelar a um 'voluntarismo' dos sujeitos, exemplo 'o próprio negro se discrimina'. Quem não quer reivindicar uma identidade que já tem porque isso é divisionista assumiu um discurso do sistema e precisa superá-lo. Quem não tem consciencia de sua própria identidade está totalmente vulnerável, e quem não precisa ter essas identidades, que são brancos, heteros e homens, não sabe que é estar vulnerável. Fica ainda mais difícil superá-lo se existem novos discursos pra que as pessoas fiquem disfarçando a realidade de sua opressão. Não sei onde que eu vi dizerem que algo muito comum ao oprimido é negar sua própria opressão, e isso é parte da própria opressão que sofre.


Já deu gente. Não vamos adotar porque agora estão embelezadas ou fica lindo, nos sentimos aceitad@s e ainda me protejo da discriminação e exposição da visibilidade nas instituições homo e lesbo fobicas como a Academia e demais.