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sexta-feira, 27 de julho de 2012

manufaturando o consenso

‎"Eu nunca tocaria uma pessoa sem seu consentimento, então onde o consentimento não estivesse imediatamnete presente, eu o manufaturaria o melhor que pudesse."

-  Manufaturar o Consenso, pode ser estupro? , texto de um cara, sobre como condutas de flerte se tornam agressões sexuais.


interessante pra quem tá acolhendo o lance de consentimento agora. recomendaria que fosse lido por lésbicas também.


condenamos o estupro e a agressão sexual como problemas longínquos, até acostumadas pelas torrentes de uptades em facebook contra a cultura de estupro, e as mídias como estereotipam estupradores e estupro. e não pensamos nunca como essas coisas podem estar tão próximas a nós.


nas relações íntimas podem haver muitas condutas de coerção para se ter o que se necessita, pode haver abuso passivo, pressão, drama, chantagem, no marco mesmo da feminilidade clássica. as feministas falam em leis ou em criar novos códigos penais (que é uma merda, não passam dum braço do estado, e claro, é algo que vem da agenda das feministas brancas), as feministas anarchas e independentes falam em fazer escracho, em alguns lados o escracho também tá colonizado pelo heroismo justiceiro machista, serve como descarga até pra um povo fora da experiência, mas trabalho profundo e contínuo parece que não acontece. muitas vezes o agressor continua por aí sem mudar merda alguma, e a sobrevivente vai ter que lidar com o que passou de qualquer jeito, e não significa que esteja protegida. Debate coletivo e apropriação comunitária das experiências de justiça e criação de justiça, não se vê. Criar ferramentas a partir das experiências, tampouco.


Primeiro, trabalho de prevenção não ocorre. Vamos seguir pensando as agressões como algo que não pode acontecer com nós - seja de qual lado possamos estar. Não vamos pensar as raízes das condutas e como as reproduzimos ou criamos ambientes que as facilitem.


Obviamente a cultura constrói as condições para os abusos sexuais, e a socialização da Masculinidade quase a torna compulsória - pornografia, amigos, e a necessidade de provar que é homem.

Não acho que todo abuso sexual é um acidente, como parece pintar o processo de responsabilização, tampouco. Acho que muitas vezes vem de uma postura de privilégio masculino e Poder que recusam-se os homens a repensá-la ou abdicá-la. Violência e femicídio também são estruturais.

As oficinas de consenso me parecem um instrumento interessante para educar sobre abusos e podermos orientar um@s aos Outr@s, é aquela coisa 'a sociedade ensina como evitar estupro, não ensina como não estuprar'. Eu também cresci tendo que ouvir meus pais dizendo que tinha que me cuidar, acho que foi aí que virei 'feminazi'...

O abuso sexual não é apenas aquela imagem dos filmes, a coerção explícita. Esta sim existe, mas existem talvez as mais perigosas, as silenciosas, as bondosas. Ainda a confiança é o espaço onde ocorrem os abusos.
Andamos conseguindo aceitar, ver e lidar com os "nãos"? Orientamos e criamos ambientes onde haja consciência de que as interações devem ser consensuais de maneira completa?

segunda-feira, 23 de julho de 2012

poliamor não pode ser um projeto lésbico ou feminista, pois sua origem é hetero-masculina-esquerdista e não genuinamente nossa. Precisamos de expressões próprias e novas de relações


Com relação à "amor livre" e "poliamor", minha ética feminista é ética de [auto] cuidado, e vem primeiro, porque mulheres vem primeiro para as éticas feministas e lésbicas. Porque a história e herstória nos mostrou que se não lutamos por nós mesmas, ninguém o fará, e não podemos esperar das revoluções, partidos, estados e organizações mais que a apropriação do nosso trabalho revolucionário no mais das vezes, assim que colocamos o feminismo e as mulheres em primeiro, nos colocamos em primeiro.

Porque é assim a ação direta de mulheres para desconstruirmos o ódio entre nós, contra nós e auto-ódio. Então eu me cago na ética anarquista, liberal. Poligamia é e foi o regime mais comum do Patriarcado, no qual se baseava a estrutura do harém. O acesso a muitas mulheres é de uma tradição machista.

Acredito que o medo a intimidade, que já vem herdado das relações capitalistas e de propriedade privada (bem disseram os teóricos do absolutismo e marquês de sade outro teórico que funda a modernidade, "o homem é o lobo do homem" na ideologia desta ordem social em que vivemos, o outro é um estranho e não me reconheço nele, mais fácil me identificar com o discurso da empresa que com @ outr@ trabalhad@r), é potencializado pelas políticas pós-modernas sexuais que vêm colonizando as comunidades lésbicas e lGBT. Seja com as teorias queer ou com outras ondas de pós-porno, etc. A promiscuidade se tornou uma agenda política de primeira ordem no lesbianismo, tanto que em alguns encontros o único que se debate agora são práticas sexuais, reproduzindo novamente a idéia hetero-patriarcal de que lesbianismo não é sobre resistência política e sim sobre sexo, logo, nada ameaçante a sociedade.


A destruição da possibilidade de cumplicidade íntima entre mulheres é uma maneira de destruir nossas comunidades e à nós mesmas, reduzindo a sexualidade a um mecanicismo grosseiro e impedindo vinculos profundos entre mulheres. Recuperando as sensações de medo e competição que já vem nos destruindo como comunidade de mulheres.

Considero quase sempre a relação aberta, uma forma de agressão e tortura psicológica mutuamente consentida num contrato coercitivo liberal e machista. Vejo que historicamente, as mulheres não tiveram segurança. Elas não podem esperar nada de um relacionamento também, ainda mais depois da contra-cultura sexual dos 70, é ser retrógrada não aceitar ser mais um objeto de troca entre homens liberados. Essa liberação privilegiada-masculina deles não é a mesma liberação que nós necessitamos.

Não temos construções de relações substanciais porque são uma ameaça ao sistema. É preferível que nos instrumentalizemos.

Relações são sobre responsabilidade, segurança, contenção também, e precisamos admitir isso. Neste mundo lesbofóbico, misógino e de capitalismo extremamente violento e vulnerador, temos necessidade de amparo mútuo e comunitário acentuado.

Emprestar expressões machistas e masculinas de anarco-movimentos já criticados pelas mulheres que neles estiveram na história, e principalmente da contra-cultura sexual (Revolução Sexual) dos 70 que não passou de um Backlash às mobilizações e avanços feministas e de mulheres, possui riscos para nós. E não passam senão de uma estratégia machista pra colonizar nossas comunidades com ódio mútuo.


Pra muitas feministas, a alternativa à relação de "pareja" é a pobreza relacional, como maneira de proteção pessoal bastante liberal. Eu não tenho nenhum acordo com essa história de que temos que ser "sozinhas", "autônomas" num sentido bem pervertido e liberal, que é o de 'única culpada de tudo'. "Lide isso você mesma". A raiva de mulheres é justificada, muitas vezes o que chamam de ciúme é reivindicação de responsabilidade e igualdade de decisões em uma relação, compromisso com o que os vínculos implicam. E implicam muita coisa.


Ninguém é 'sozinha', no sentido liberal, de que existe uma auto-subsistência totalmente individual. É preciso redefinir autonomia para não cair nos paradigmas falsos liberais que pretendem culpar a vítima e desolar sujeitos. É certo que sem sujeito não há libertação, mas tampouco sem comunidade não há libertação real e coletiva.


Sob capitalismo o apoio mútuo da relação amorosa se impôe como necessidade de auto preservação, auto defesa e sobrevivência, isso pode implicar mais vulnerabilidade e relações de dependência que podem gerar desamparo e violência doméstica, isolamento.


Minha proposta é que ao invés de uma parceria amorosa única, as lésbicas possam ter acesso a uma comunidade de mulheres onde se sentirão fortes, seguras e inteiras. Assim se quebra a monogamia, não com polícia moral anarquista e suas teses falcatruas de sempre.

O conceito de "parejo", muito criticado em língua espanhola para referir-se às relações de dependência mútua ou de simbiose dissolutiva do individual, para mim não remete somente a essa noção demonizada por feministas [liberais] e anarquistas, e sim se algo é "parejo", é porque está "igual", ou seja, "igualitário", se diz. A idéia de que "a pessoa que se arranje, os sentimentos de insegurança são delas" é incrívelmente anti solidario e liberal "isso é problema seu", foda-se você. Já a idéia de fazer toda essa merda com "cuidado" me parece o mesmo que violar com "cuidado", para que o escravo sinta-se satisfeito com o tirano da relação. A raiva de mulheres e lésbicas com esse tipo de hostilidade me parece justa, é a raiva da injustiça de coisas que não são igualitárias, que chamam 'ciúme', termo naturalizante. 



Comparar o 'ciúme' com a violência machista me parece ridículo, que é uma política de ódio e não vem da natureza. Mulheres precisam sentir segurança, vivemos em contextos de vulnerabilidade. Homens não sentem isso, sentem necessidade de assegurar sua Masculinidade que se expressa pela apropriação das mulheres, seu controle e seu acesso. O término da relação é mais revolucionário que a reformação com a relação aberta. A primeira é ataque frontal a monogamia, a segunda é um reformismo grosseiro.




(reflexões não teminadas e em processo de construção)

quarta-feira, 18 de julho de 2012

+ sobre porno e colonização da comunidade lésbica


não existe nenhuma possibilidade de sobrevivência das mulheres e lésbicas por meio da pós-pornografia e pornografia, ou da terrorpornografia ou o que seja. Essencialmente a pornografia é degradação da mulher e do Outro, não existe nenhuma possibilidade de recriar-nos e a nossa sexualidade colonizada e tomada, nossos corpos e imaginários tomados, depois de séculos de violências e violações racistas brancas e de atrocidade masculina, por meio da pornografia. A pornografia destruiu a comunidade lésbica, como queria o patriarcado. Você não pode esperar nenhuma solidariedade ou amor de uma outra mulher, o patriarcado re-semeou o ódio entre as mulheres, a heterosexualidade. A ética e a estética da pornografia é a negação do outro em sua fundação. Nâo existe mais nenhuma definição própria da lesbianidade que reste, que não seja a patriarcal e não a da comunidade mulheres, a definição de que eramos sobre resistência coletiva ao heteropatriarcado e cumplicidade entre mulheres, a unica definição que restou é a masculina, de que somos sexo.

Quando me mostrem sites de pornografia feminista europeus, é isso que penso da apropriação da pornografia, um instrumento de dominação patriarcal. Não tenho interesse de me apropriar nem da pornografia, nem da prostituição, nem do escravismo, nem do Estado, nem das leis, não tenho interesse em ressignificar nada que tenha sido criad* pelo patriarcado, tenho interesse em criar novas coisas. Acho uma distração. Já não há esperança de encontrar na comunidade feminista qualquer relação profunda entre nosotras, de conhecimento mútuo profundo, proteção, segurança, a pornografia tornou as mulheres sozinhas e isoladas outra vez uma das outras. A comunidade lésbica não significa mais nada sobre ética de amor entre mulheres, de construir um mundo diferente.  Devemos ao feminismo liberal individualista queer burguês e sua libertação sexual lésbica que agora nossa comunidade já está livre do compromisso entre mulheres anti-poliamor.

a gente já não pode rejeitar essencialmente e radicalmente a violência e a degradação, a gente só pode negociar, com as armas e linguagem patriarcais e capitalistas, do consentimento, do consenso, consentimento em degradar-me ou degradar o Outro. Não existe construção de relação igualitária. Eles são os verdadeiros essencialistas, ao dizer que a sexualidade é essencialmente degradação e só nos resta negociar, com palavras seguras, para sobrevivermos por meio desse sexo. Tudo é resumido a um contratualismo liberal sexual, abolir formas de sexualidade opressivas não é possível.

Esta é uma questão ética, não  é uma questão privada.

terça-feira, 17 de julho de 2012

consenso ou consentimento?

Qual conceito é pior, consenso ou consentimento? Pensava que o último era muito contratualista e machista, e implicava coerção, mas o consenso também remete a âmbitos de decisão coletivizada onde desaparece a individualidade. O consentimiento neste caso remete a campo de poder individual de decisão. Mas eu ainda não gosto de nenhum. "Consensual" me remete a algo mais igualitário, construído conjuntamente e democrático que "consentido" que parece responsabilizar a vítima ou pôr tudo em cima do sujeito (ele tem agência, sabe o que tá fazendo, está decidindo que arque com as consequencias).

Achei um poster interessante ontem, uma das primeiras coisas que vi criticando o processo de acontabilidade visivelmente, por not your cyster press. Segue abaixo, logo uma tradução (tamanho maior aqui, o pdf do cartaz).



"Toque me e eu te mato" "o processo de responsabilização é uma fraude porque muitos sobreviventes são forçados a re-viver seus assaltos sempre e sempre, e estupradores e assaltantes sexuais são dados um passe em sua violência, acontabilidade comunitária é uma mentira porque a comunidade em si mesma é uma mentira. Ao invés disso, nós oferecemos uma solução modesta para o processo que cria e mantém nossa vitimização: Vamos recusar-nos a sermos vítimas. Vamos fazê-los sofrer."


Acho tendenciosa a justiça transformativa. Mas isso não significa que não seja necessário fazer o debate sobre um feminismo aboliconista penal e carcerário. Formas de justiça popular e comunitária são possíveis e melhores. Mas devem estar nas mãos das mulheres e visar que os homens perdam. Isso rende outro post sobre feminismo anti penal.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Processo de Responsabilização? Separatismo do it better!

Na antiga política feminista... se você estava com um agressor... as mulheres podiam estar no âmbito da escolha. Escolher se separar totalmente do agressor, desidentificar-se dele, de projetos conjuntos, de um espaço... formar o próprio. Começar nova vida. Descolonizar-se da misoginia, da heterossexualidade se possível... Hoje com o papo queer, os agressores devem sofrer um "processo de responsabilização" e serem até mesmo perpetuados num espaço politico... a menina não vai mais ser estimulada a terminar esse vínculo e buscar seu próprio espaço político com outras mulheres... elas podem reformá-los, com o processo de responsabilização. Vamos agradecer outra vez a nossa querida revolução queer, que tanto nos libertou da tirania do feminismo "policial" que criticava as práticas prejudiciais às mulheres e recuperou o direito das instituições de erotizá-los com seus veículos hegemônicos, ops, direitos privados de consumir tais produtos sociais colonizatórios, racistas, classistas, branco e cooptadores de movimentos críticos.


Vamos recuperar a lição das separatistas: homens só vão mudar individualmente com a perda da relação, com a perda do acesso às mulheres. E coletivamente, com a separação das mulheres com relação à eles, construindo comunidades de mulheres. É nisso que eu ainda aposto, ainda que vocês me chamem essencialista por isso. depoimento de uma garota sobre como "processo de responsabilização" existe pra manter privilégio masculino de homens dentro de comunidades políticas... óbvio. Há quanto tempo as feministas não vem falando que não existe essa de "tratar" violência doméstica com terapia? Quem que ia acabar revivendo esse tipo de modelo violento pras mulheres, senão as tais "comunidades 'radicais' queer"...

Para o grau de difusão dessa literatura, principalmente pelas supostas alternativas radicais que são os movimentos de consumo alternativo de classe média que é o punk veganista queer anarco misógino, que ando vendo, precisava um post bem longo. E vai sair

Para quem quiser ver, eu vou upando algumas coisas que vejo na internet de sobreviventes nessas comunidades relatando suas experiências de segundo abuso com esses "processos de responsabilização" (vejam que esses anarko criticam sistema judicial falam que é segundo abuso com sobreviventes enfrentá-lo, porque são contra a polícia, coisa que certamente também sou, mas ninguém tá discutindo o abuso que é pra sobrevivente ser pedida para não "estereotipar" seu agressor, e as energias invertidas em responsabilizá-lo...) Vejam Accountability Process Disaster e o texto de Tamara Kooper, Espaços Ativistas não são Espaços Seguros para Mulheres.

Feministas amadas, a história do feminismo é que nós rompemos nos anos 70 com a esquerda. As feministas negras romperam com os Panteras Negras. As feministas sempre vão radicalizar e firmar seu movimento autônomo. Até as anarquistas da 1a onda fizeram isso, elas eram auto-organizadas. Chega de trabalhar pra esquerda. Chega do papel materno. Abaixo a heterossexualidade obrigatória. Vamos formar comunidade entre mulheres.

O problema da violência nas comunidades políticas tem haver com algo estrutural. A esquerda ou movimentos progressistas em geral (por isso entendo e inclui todas experiências políticas ou ativistas ou militantes mistas que sejam contra um regime político dominante) falham em algo inicial, que é que sempre vão tomar, por algum tema de privilégio masculino, o tema do sexismo como algo complementário, num ambito reformista, e quando tomam coomo algo estrutural é como um discurso, na prática eles nunca soltam as tetas das mães, nós mulheres, e as mulheres nunca deixam desse papel materno e de donas da casa e nunca deixam de trabalhar pra eles, por isso se atraem pela proposta de reformar os agressores, ao invés de fazer o luto de uma identidade e espaço político para inverter energia na construção das próprias comunidades feministas e de mulheres. O poder masculino só vai aprender perdendo acesso as mulheres, o Estado nunca vai conceder nossa libertação assim como os homens não vão dar nossa liberdade, só nossa autonomia pode nos dar. Já quanto a violência nas comunidades feministas e lésbicas, esse é um capítulo a parte... mas sempre me parece sintoma de auto agressão e coisas que invisibilizam são ao mesmo tempo nossa falta de éticas feministas, mas também nosso extremo essencialismo otimista as vezes.

O poder masculino só vai ser desconstruido por meio da perda do acesso as mulheres, onde se baseia seu privilegio, e não pela educação, porque não queremos mais ser educadoras nem nutridoras. Nao vai ser desconstruido por performance de gênero, que só oculta ainda mais os privilégios, senão é mais uma expressão do privilégio masculino, porque só os homens podem nesse sistema político, identificarem-se com a feminilidade, categoria criada pela supremacia masculina e categoria opressiva, como uma forma de "liberação" ou como empoderamento, é um privilégio masculino transitar e a nova versão liberal do feminismo é pensar que podemos também ter os privilegios deles, transitando adquirimos poder nenhum tampouco e nao passa duma ilusão de empoderamento e nojo do espelho, porque somos mulheres, um coletivo específico nao uniforme, mas sim coletivamente afetado por um traço compartido. nao reconhecermo-nos como mulheres nao ajuda em nada no 1o passo que é ganhar consciencia de classe para mover coletivamente por uma transformaçao estrutural, individualmente não reconhecer como mulheres pode nos deixar mais tranquilas, mas coletivamente parece a repetição da história de desidentificar-se da mãe subordinada, fonte de vergonha pra filha rebelde.

escravidão moderna

“Eu libertei uma centena de escravos. Eu poderia ter libertado umas centenas mais se apenas el*s soubessem que eram escravos”. Harriet Tubman. via thefreeslave

(“I freed a thousand slaves. I could have freed a thousand more if only they knew they were slaves.” Harriet Tubman)

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Gênero como discurso institucional braço do genocídio ecológico e biodiversidade

Quero desenvolver um pensamento elaborado sobre isso porque acho que há uma conexão quase umbilical entre os discursos pós-modernos e de gênero e a cegueira para a violência da globalização e colonização tecnológica que estão fodendo (literalmente, já que o Patriarcado se expressa pela violação simbolica, institucional e materialmente) nossas biodiversidades, países, gentes, bichinhos, plantas, florestas, recursos naturais de nossa necessidade, terra, e "países" (conceito nacionalista ruim, mas se entenderem como territorialidades está bom já). Acho que me faltam ligar as peças, e também talvez conseguir lograr uma visão mais "holística" (como fala Marti Kheel) e integrada de todos fatores.

Algumas autoras mais contemporâneas que teorizam o Ecofeminismo me parecem boas (o ecofeminismo mais político é o que mais me ressoa, mas também gosto do ecofeminismo da 1a onda, das deusas e mitos e da compreensão simbólica mulher=natureza, que chamam de essencialista e até diferencialista, gosto de cacilda rodrigañez bustos também, mas esses tem uma compreensão bem geopolítica que me abre a cabeça toda vez que leio) ops, continuando depois desse enorme parênteses, são Maria Mies, Vandana Shiva e Marti Kheel, a primeira alemã, envolvida com os incidentes de Tchernobil e a resistência do ativismo alemão contra as usinas nucleares e que fala do papel dos movimentos de mães (é tremenda essa feminista! consigam algo dela vale muito a pena, há um texto dela num livro chamado Feminismo Alemão ou algo assim), a segunda indiana e a terceira é pioneira do feminismo vegano, unindo os temas, primeira que deu uma virada na mesa dos ambientalistas e animalistas masculinistas e uniu ecofeminismo com a ética animal... escreveu também sobre medicina ocidental alopática e sobre éticas holísticas.


Eu não consigo ver como o discurso de gênero pós-moderno pode nos ajudar a resistir a invasão dos transgênicos, à biopirataria, que valore saberes originários e cura com plantas, que resista frontalmente aos ataques aos corpos das mulheres por meio da engenharia genética voltada para os hormônios, a hormonização das mulheres, as políticas de controle reprodutivo racistas e imperialistas aplicadas as mulheres negras e pobres de 3o mundo, os testes farmacêuticos realizados em pessoas terceiromundistas e negras e de cor e que seguem sendo testados, os governos que os respaldam, as políticas de saúde que respalda isso tudo, a invasão dos corpos das mulheres com essas merdas, a guerra verde e o capitalismo verde, o imperialismo verde de Monsanto e outras e o aprofundamento dos latifundios e da violência no campo. Por que?

Por que essa gente não pode se contradizer. Eles dizem que tudo é agência e escolha individual, e que criticar essas tecnologias é monitoramento e polícia feminista. Eles respaldam essas tecnologias, dizem que gênero é uma, e que não há algo como uma Natureza, que é um discurso, que não vivemos de modo natural (e por acaso eu pude escolher outro modo de viver senão invadida pelos produtos sintéticos? Onde nasci?) então como vamos falar em agressão ambiental, em uma lógica orgânica, inerente, natural, na vida? Se tudo é discurso? Anomalias genéticas, cânceres, também são uma interpretação? É um discurso sobre a Natureza dizer que as tecnologias impôem risco a saúde sexual e reprodutiva? As tecnologias reprodutivas empoderam as mulheres? Corpos são próteses, "todas fomos cirurgiadas"?

Conceitos de agência, individualismo liberal, discursos pós-modernos e sua cumplicidade gritante com a colonização tecnológica de nossos corpos, meio ambiente e vidas. Respaldo Ideológico da Globalização Tecnológica Patriarcal.

Sinceramente pessoas, essa história pós-moderna de que "não existe uma natureza, isso não passa de um discurso" possui implicações éticas que tinhamos que estar atenta na hora de escolher nossas compreensões da realidade. Esta no caso, é produzida no contexto atual ao meu ver, e anda ao lado da nova noção de "agência" liberal. Esse discurso é muito favorecido num contexto de novas tecnologias que dominam nossas vidas, principalmente tecnologias reprodutivas, sexuais e seu papel clássico no controle das mulheres. Sem falar da tecnologia médica, farmacêutica, e seu império, especista, patriarcal, racista, e que se tratam de um campo de Poder, e não se enganem com as mentiras ou discursos produzidos pelos mesmos, de que existem para salvar nossas vidas ou melhorá-las, esse discurso é uma fachada, a tecnologia é uma maneira de construir hegemonia e poder pelos grupos de sempre que destroem o planeta. Aí vem a galera pós-moderna aí, "subversivamente" mutante, e fala que entender os usos de tecnologias farmaceuticas, médicas e ginecológicas, industriais, é uma polícia feminista? gente, não. Natureza existe. É algo bem real. Não é discursivo, é fenomenológico: você faz uma merda com seu corpo, ele reage. A reação é uma defesa e já é cura, por mais sofrida que possa parecer, até mesmo as formas de adoecer podem ser entendidas dessa maneira, por paradoxais que sejam no caso do adoecimento psíquico (ou os tais "transtornos mentais", de humor etc). A lógica é: quanto mais próximo do vital, melhor, seja com os alimentos ou nossas vidas. É uma leitura sobre meu corpo, a reação dele aos químicos e industriais, mas minha leitura não é só um relativismo fenomenológico. Eu leio dentro dum contexto patriarcal, mas é uma coisa bem real que esse meu "corpo", essa "natureza", reage contra uma coisa real que é um "dano", físico no caso. Com esse tipo de justificativa fornecida pelo mesmo sistema que nos vende suas merdas, justificamos também que tudo é relativo, e que eu como feminista é apenas uma escolha pessoal que eu não injeto hormônios que regularizem ou controlem ou impeçam minha menstruação, que não uso absorventes industriais, mas as demais mulheres, é escolha sua se elas quiserem implantar-se um lance de hormonio por meio de cirurgia, para pararem de menstruar, e depois morrerem ou melhor, serem mortas pela política de ódio patriarcal contra nossos corpos. Não dá, desculpa feministas de 3a onda, eu não acredito nisso e podem me chamar de impositora e totalitária, mas não dá mesmo. Eu prefiro ainda a Deusa que o Ciborgue, "Dona Haraway"... É um ataque total às mulheres.



(a desenvolver mais. Pontos: especismo do império farmacêutico. racismo do império farmacêutico e das políticas reprodutivas, misoginia das teorias pós-modernas e ódio aos corpos das mulheres como eles são, compreender o ciclo medicinal agressão aos corpos-venda dos medicamentos como ataque aos corpos das mulheres, e tentar entender por que as argumentações pós-modernas em torno ao uso das tecnologias como beatriz preciado, haraway e os feminismos influenciados pela teoria de discurso e análise de discurso são tão liberais e por que são tão respaldados e difundidos, que papel jogam eles na instalação desse regime democrático ocidental patriarcal e capitalista e por que ninguém vê que isso é óbvio. Emfim lembrem-me de alongar esse post).

gênerxs

Tal vez o que explique que os feminismos e suas correntes atuais de "gênerx", de sexualidade como escolha privada, e o anarquismo, sejam tão liberais, é de que tenham saído duma tradição de pensamento iluminista e que se desenvolveram, e nós mesmas aqui e movimentos sociais, no contexto dos Estados Modernos, contratualistas, burgueses. Tudo é uma questão de arreglar o contrato entre burgues e proletário. Se o proletário tá feliz nesse contrato, não importa se é explorado. É assim que as pessoas pensam e assim que se mobilizam. Então nenhum movimento por mais radical que pose, por exemplo @s anarquist@s, que reproduzem os mais extremos da ideologia liberal, deixa de ser institucional ou reformista, no contexto das democracias ocidentais. São colonizadas por ela, e lutam por "melhoria", para melhorar o próprio capitalismo. E por isso que ter claro isso e escolher posições políticas que não apostam no liberalismo e no contratualismo e sim em mudanças substanciais e estruturais, é uma contradição e um gasto de energias tão grande. Sempre vamos ser um ataque ao direito burguês privado, sempre vamos ser restrição a liberdade de cada burgo de explorar seus próprios explorados, e dos proletários escolherem qual exploração é a melhor porque tentamos difundir que a luta organizada é melhor que ganhos pequenos privados.

slutwalk?

A idéia da Slutwalk (Marcha das Vadias) é meio a tentativa de assimilar e transformar classe de mulheres burguesas numa identidade/mercado sexual, ou seja elevar a um tipo de mercado consumidor sexual potencial sem mudar sua condição significa de subordinação - prostitutas. Se as mulheres são sujeitos de sua sexualidade, elas só podem sê-lo na condição justamente daquelas que existem para servir e satisfazer a sexualidade masculina ou de um cliente. Além disso nunca supera a equação mulher=sexualidade. A forma de transgressão das mulhereres na ordem sexual masculina seria serem "prostitutas", não soa estranho? "Lésbicas" não seria uma transgressão maior e mais temida? A suposta agência em troca monetária é algum simbolo real de empoderamento ou auto determinação e capacidade de decisão sobre nossas vidas? Quem quer que sejamos "vagabundas"? Emfim muito hetero essa coisa. É tipo uma nova parada gay mesmo, outro showzinho dentro do sistema. Não menciono aqui nem que nenhuma dessas para numa esquina pra poder se reivindicarem "putas", nem vejo como qualquer ato solidário senão de invisibilização da realidade das mulheres. Vejo que a agenda da sexualidade individual comercial, discurso hegemônico difundido academicamente e institucionalmente, vem colonizando todos movimentos sociais, e o de mulheres não foge disso.


Há muitas coisas para serem pensadas sobre a Slut Walk e isso exige um escrito mais longo da minha parte que tengo pendente escrever. Há vários pontos a serem levantados. Uma coisa que quero trazer a reflexão em uma próxima postagem é sobre a idéia de "consentimento" sexual que rege o feminismo liberal hetero. O que acho estranho é o silenciamento geral em torno da Slut Walk, porque ninguém quer hiper criticar uma mobilização de mulheres, além do contexto delicado machista onde algumas críticas surgem. Se falo pessoalmente com feministas, quase nenhuma das que estimo têm acordo com a marcha, para além de outros problemas como politização por partidos e outros. Acho que é preciso um escrito sobre. Lembrem-me de escrever sobre isso.